Osteoporose: Será que o tratamento atual é o melhor?

Os suplementos de cálcio aumentam as chances de infarto do miocárdio (“ataque do coração”). Essa conclusão de um artigo recente da revista científica “Heart” só veio confirmar o que há muito tempo já sabíamos: O tratamento da osteoporose deve ser revisto. (Li K, Kaaks R, Linseisen J, Rohrmann S. Associations of dietary calcium intake and calcium supplementation with myocardial infarction and stroke risk and overall cardiovascular mortality in the Heidelberg cohort of the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition study (EPIC-Heidelberg). Heart. 2012 Jun;98(12):920-5(o artigo completo está aqui).

Uma das situações mais dramáticas na terceira idade é quando um idoso fratura um osso. O comprometimento da qualidade de vida costuma ser brutal, pois o tipo de fratura (como no colo do fêmur) e a dificuldade de consolidação acabam gerando meses de inatividade, cirurgias, assistência no leito, reabilitação lenta, entre outros dramas que acabam gerando dificuldades não só para o paciente como para todos que o cercam.

A ciência tem procurado minimizar a situação tentando diminuir a taxa de fraturas, com exames que medem a densidade do osso, e tratamentos para deixar o osso mais “duro”. Vale a pena discutir se essa abordagem é a mais adequada, através da compreensão dos mecanismos do aparecimento deste sintoma. Sim, porque a osteoporose pode ser vista como apenas um sintoma, como uma dor ou uma febre. E, assim como a dor e a febre, não adianta ficar tomando analgésicos ou antitérmicos.

Vamos começar falando sobre o cálcio. Qual a principal função do cálcio? Se alguém pensou na fabricação do osso, errou. O Cálcio é muito mais importante no funcionamento das células do sistema nervoso (nervos e cérebro) e dos músculos (não só da musculatura esquelética, mas também do músculo cardíaco e da  musculatura lisa, como do intestino ou das artérias). Na verdade o nosso corpo praticamente não funciona sem cálcio.  (Cheng H, Lederer WJ. Calcium sparks. Physiol Rev. 2008 Oct;88(4):1491-545.)

Portanto, temos um íon que é extremamente importante para várias funções do organismo, e que não pode faltar, senão os músculos não relaxam, o coração para, a digestão não progride, as artérias não controlam a pressão, o útero não contrai, a urina não sai, e o cérebro, a medula espinhal e os nervos não conduzem o impulso nervoso.

Sem  o cálcio não existe vida, então não pode faltá-lo na circulação sanguínea.

E nós precisamos de um grande depósito para que nunca falte nas atividades essenciais do nosso organismo. E esse depósito é o osso, que ainda funciona para sustentação do organismo. O controle do cálcio no sangue é feito por hormônios como o paratormônio(da paratireóide), a calcitonina (da tireóide) e a vitamina D (“a vitamina do sol”).    (Guyton & Hall: Textbook of Medical Physiology, 12ed, 2011).

Daí algo acontece no idoso que faz com que comece a faltar o cálcio nos músculos e nervos, levando ao aumento da retirada de cálcio do osso. Portanto a osteoporose não é uma doença em si, mas o sintoma que o organismo andou retirando cálcio demais do osso.

Mas porque está faltando cálcio nos nervos e músculos, já que na maioria dos casos o cálcio no sangue está normal? Com o avançar da idade, aumenta a agregação eritrocitária, ou seja, os glóbulos vermelhos estão mais grudados, diminuindo a circulação nos vasos sanguíneos menores, como os capilares que nutrem os nervos e os músculos (já escrevi sobre isso aqui).  A alteração da microcirculação faz com que falte cálcio (assim como outros nutrientes) nos órgãos nutridos pelos capilares (vasos sanguíneos muito pequenos) (Tikhomirova IA, Oslyakova AO, Mikhailova SG. Microcirculation and blood rheology in patients with cerebrovascular disorders. Clin Hemorheol Microcirc. 2011;49(1-4):295-305.). O transporte de cálcio para as células fica então prejudicado, fazendo com  que o nosso organismo aumente a retirada de cálcio do osso (reabsorção óssea). Em patologias como na diabetes tipo II, onde a agregação eritrocitária está bem aumentada, o índice de fraturas também aumenta, apesar da aparente densitometria óssea normal (Yamaguchi T, Sugimoto T. Bone metabolism and fracture risk in type 2 diabetes  mellitus. Endocr J. 2011;58(8):613-24. Cho YI, Mooney MP, Cho DJ. Hemorheological disorders in diabetes mellitus. J Diabetes Sci Technol. 2008 Nov;2(6):1130-8). Isso ao longo dos anos, somado à deficiência de vitamina D, causada principalmente pela falta da exposição ao sol, desencadeia a osteoporose (Binkley N. Vitamin D and osteoporosis-related fracture. Arch Biochem Biophys. 2012 Jul 1;523(1):115-22).

Então o que temos? Idosos, com diminuição de circulação em músculos e nervos, o que impede o transporte do cálcio para esses tecidos, com o organismo tentando repor esse cálcio retirando-o do osso. E infelizmente os tratamentos atuais só levam em consideração a densidade dos ossos.

Uma das coisas que se tenta fazer é a suplementação do cálcio, que nada mais é do que aumentar a quantidade de cálcio no sangue para não ser transportado. O aumento do cálcio no sangue também acaba aumentando a agregação eritrocitária, diminuindo a microcirculação (Cicco G, Carbonara MC, Stingi GD, Pirrelli A. Cytosolic calcium and hemorheological patterns during arterial hypertension. Clin Hemorheol Microcirc. 2001;24(1):25-31.). Também pode começar a depositar o cálcio nas paredes das veias e artérias. Por isso a suplementação de cálcio pouco faz pelo organismo, no máximo aumentando temporariamente o cálcio disponível no sangue (diminuindo a retirada do osso), mas esse cálcio não consegue atingir justamente as áreas mais afetadas. O resultado de tudo isso pode levar ao endurecimento das artérias e o aumento da agregação das hemácias, o que facilita eventos como o infarto do miocárdio. O aumento das taxas de infarto do miocárdio nos pacientes que tomam reposição de cálcio está bem aumentado, que foi verificado não só nesse artigo da Heart como em outras publicações(Meier C, Kränzlin ME. Calcium supplementation, osteoporosis and cardiovascular disease. Swiss Med Wkly. 2011 Aug 31;141:w13260.  Bolland MJ, Grey A, Avenell A, Gamble GD, Reid IR. Calcium supplements with or without vitamin D and risk of cardiovascular events: reanalysis of the Women’s Health Initiative limited access dataset and meta-analysis. BMJ. 2011 Apr 19;342:d2040.) . Muitas vezes a suplementação do cálcio é feita com uma quantidade muito pequena de vitamina D3, em torno de 200UI a 400 UI, o que é melhor do que nada, mas não ajuda muito, já que normalmente esses pacientes têm uma deficiência muito grande desta vitamina, e a baixa vitamina no sangue está associada ao risco de doenças cardiovasculares.(Pilz S, Kienreich K, Tomaschitz A, Lerchbaum E, Meinitzer A, März W, Zittermann A, Dekker JM. Vitamin D and cardiovascular disease: Update and outlook. Scand J Clin Lab Invest Suppl. 2012;243:83-91.)

Outra solução atual no sentido de melhorar a saúde dos ossos é  interromper a retirada de cálcio do osso (Honig S. Osteoporosis – new treatments and updates. Bull NYU Hosp Jt Dis. 2011;69(3):253-6.). Esses tratamentos, muito populares no momento, diminuem a função dos osteoclastos (células responsáveis por retirar o cálcio dos ossos), e acabam atrapalhando a tentativa do nosso organismo de restabelecer a quantidade de cálcio necessária para os músculos e os nervos funcionarem. Ou seja, pode até ser que diminuam um pouco o índice de fraturas, mas tem o potencial de atrapalhar bastante a fisiologia já frágil do idoso. E ainda causam alterações ósseas que podem levar a necrose dos ossos das mandíbulas e fraturas atípicas do fêmur, além de outros efeitos como a diminuição do cálcio no sangue (o que obriga os médicos a receitar os suplementos de cálcio que só pioram a situação do paciente) (Arboleya L, Alperi M, Alonso S. Adverse effects of bisphosphonates. Reumatol Clin. 2011 May-Jun;7(3):189-97, Park-Wyllie LY, Mamdani MM, Juurlink DN, Hawker GA, Gunraj N, Austin PC, Whelan DB, Weiler PJ, Laupacis A. Bisphosphonate use and the risk of subtrochanteric or femoral shaft fractures in older women. JAMA. 2011 Feb 23;305(8):783-)

Isso posto, podemos concluir que o tratamento atual da osteoporose apenas melhora um pouco a condição da densidade do osso, com o prejuízo da saúde do resto do organismo. Músculos e nervos ficam gravemente prejudicados, e a chance de causarmos um infarto do miocárdio aumenta muito, além de aumentar a chance de fraturas atípicas, necrose de mandíbula e outros efeitos colaterais. Na minha opinião, estamos muito longe de um tratamento ideal.

E qual seria o tratamento ideal? O tratamento ideal tem que respeitar o funcionamento do nosso organismo e promover a saúde como um todo, e não simplesmente ficar olhando somente para o osso. O tratamento tem que focar na melhora da microcirculação e na diminuição da agregação eritrocitária. E aumentar a vitamina D do sangue para níveis ideais, de preferência naturalmente, através da exposição ao sol no horário de maior incidência de raios ultravioleta B (próximo da hora do almoço), sem filtro solar, até a pele começar a avermelhar, ou pela reposição da vitamina D3.  Do jeito que é feito hoje estamos simplesmente gerando indivíduos com um osso um pouco mais denso, mas com doenças que não compensam a melhora em um exame (a densitometria óssea). O que adianta ter um osso um pouco melhor, mas com a saúde pior, com o organismo tentando corrigir, tirando o cálcio do osso, e o tratamento impedindo-o. O que importa é ter saúde para não precisar retirar o cálcio do osso.

Depressão: A “falsa”epidemia do século XXI?

Imagine você passar anos sabendo que você está com depressão, vendo a vida passar como se somente os outros fossem convidados para a “festa da vida”. Os remédios ajudaram no início do quadro, mas agora, mesmo tomando os remédios em altas doses, você se sente cada vez pior, cansado(a), sem ânimo de fazer nada. Daí descobre que a causa do seu problema era uma doença física que não tinha sido diagnosticada.

O diagnóstico de depressão está cada vez mais presente, é difícil o dia que não recebo no consultório pacientes com esse diagnóstico, a maioria tomando os antidepressivos chamados inibidores seletivos de recaptação de serotonina . O sofrimento desses pacientes é patente, e o diagnóstico foi feito somente através dos sintomas, sem uma investigação clínica mais profunda.

É como se estivéssemos em uma epidemia contemporânea, e o que é pior, os remédios até ajudam no início do tratamento, mas com o passar do tempo, muitos pacientes continuam deprimidos, apesar da medicação. Mas será que todos estão com depressão de origem puramente psíquica?

Vejamos alguns critérios diagnósticos da depressão, segundo o DSM-IV (O manual psiquiátrico utilizado para diagnosticar os problemas mentais): “Estado deprimido”, “Dificuldade de concentração”, “Insônia ou sonolência”, “Perda ou ganho significativo de peso” “Diminuição de energia, cansaço, fadiga”. O maior problema é que esses sintomas podem estar ligados a doenças físicas,  E isso significa que o tratamento dessas doenças pode fazer toda a diferença no paciente “deprimido”.

Existem três doenças muito prevalentes que podem levar a sintomas muito semelhantes a uma depressão de origem psíquica:

– Hipotireoidismo.

– Resistência à Insulina.

– Deficiência de Vitamina B12.

O Hipotireoidismo é uma deficiência do funcionamento da glândula tireóide, que mesmo quando as alterações glandulares são mínimas (hipotireoidismo subclínico), mais de 50% dos pacientes apresentam depressão (ROMALDINI, João Hamilton; SGARBI, José Augusto  and  FARAH, Chady Satt. Subclinical thyroid disease: subclinical hypothyroidism and hyperthyroidism. Arq Bras Endocrinol Metab [online]. 2004, vol.48, n.1 [cited  2011-12-20], pp. 147-158 . http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302004000100016.). Felizmente a maioria dos médicos pedem exames da função tireoideana quando deparam-se com pacientes deprimidos, e essa condição é rapidamente diagnosticada, o que não acontece com as outras duas outras condições citas acima.

A resistência à insulina é outra das possíveis causas da depressão. Para entender a depressão nessa condição, vamos recordar o que acontece com o metabolismo dos carboidratos. Quando comemos os carboidratos, eles são digeridos em açúcares como a glicose. A glicose não pode ficar “sobrando” no sangue (precisa ir para as células ajudar na formação de energia, além de ser depositada nas  células do fígado ou da gordura). A insulina, fabricada no pâncreas, é a principal responsável pela mobilização da glicose. A secreção de insulina é bem complexa, em “ondas” (Seino S, Shibasaki T, Minami K. Dynamics of insulin secretion and the clinical implications for obesity and diabetes. J Clin Invest. 2011 Jun 1;121(6):2118-25 ), e o consumo exagerado de carboidratos faz com que  a insulina pare de funcionar, gerando a resistência à insulina, caracterizando a pré-diabetes (Roberts CK, Liu S. Effects of glycemic load on metabolic health and type 2 diabetes mellitus. J Diabetes Sci Technol. 2009 Jul 1;3(4):697-704 ). A resistência à insulina, junto com a obesidade e a hipertensão formam o que chamamos de “síndrome metabólica”,  uma das maiores causas de doenças como infarto do miocárdio (ataque do coração) e acidente vascular cerebral (derrame). Mas, como nesses casos a glicose não gera energia, isso também gera cansaço, fraqueza, desânimo, sintomas idênticos ao da depressão. Vários trabalhos científicos relatam os sintomas depressivos em pacientes com síndrome metabólica (Akbaraly TN, Ancelin ML, Jaussent I, Ritchie C, Barberger-Gateau P, Dufouil C, Kivimaki M, Berr C, Ritchie K. Metabolic syndrome and onset of depressive symptoms in the elderly: findings from the three-city study. Diabetes Care. 2011  Apr;34(4):904-9.; Koponen H, Jokelainen J, Keinänen-Kiukaanniemi S, Kumpusalo E, Vanhala M. Metabolic syndrome predisposes to depressive symptoms: a population-based 7-year  follow-up study. J Clin Psychiatry. 2008 Feb;69(2):178-82.; Kozumplik O, Uzun S. Metabolic syndrome in patients with depressive disorder–features of comorbidity. Psychiatr Danub. 2011 Mar;23(1):84-8.)  O diagnóstico da resistência à insulina não é difícil, basta investigar os níveis de glicose e insulina após ingestão de glicose (curva glicêmica e insulinêmica). A hemoglobina glicada acima de 5,7% também indica uma situação de pré-diabetes. (American Diabetes Association Guidelines, 2009 ). Portanto, antes de iniciar um tratamento com antidepressivo vale a pena investigar se o cansaço e o desânimo não são conseqüência de resistência à insulina, ou mesmo de uma hipoglicemia. Essa condição é extremamente comum e prevalente no nosso meio.

Portanto o hipotireoidismo e o pré-diabetes podem levar aos mesmos sintomas da depressão psíquica. E sem um diagnóstico correto, é possível que uma parte dos pacientes considerados portadores de depressão psíquica estejam com um problema clínico. E tem ainda um outro problema, muito comum, e se não diagnosticado pode levar a conseqüências graves: A deficiência de vitamina B12.

A vitamina B12 é produzida por bactérias e chega ao organismo humano através do consumo de carne de animais que entraram em contato com essas bactérias. A vitamina B12 é absorvida no intestino delgado com a ajuda de uma proteína do estômago conhecida como fator intrínseco e pelo ácido do estômago. Portanto os vegetarianos, aqueles que não tem o estômago (p. ex. cirurgia bariátrica) ou que utilizam remédios que inibem o ácido do estômago, além dos idosos cujo estômago pode estar com atrofia, são mais propensos a essa deficiência. Há algumas pessoas também que possuem deficiência na absorção da vitamina B12. Os sintomas vão desde fraqueza e desânimo até lesões cerebrais irreversíveis, com diminuição na capa de mielina das células do sistema nervoso. O ácido fólico, ou vitamina B9, também costuma estar diminuído nestes casos piorando ainda mais a situação.

O pior é que não é fácil diagnosticar a deficiência de vitamina B12, já que os níveis podem estar quase “normais”,  mas a vitamina celular está baixa. E aqui no Brasil não se dosa a holotranscobalamina, que é a vitamina B12 que funciona nas células. Portanto o que devemos fazer é dosar a vitamina B12 total (que pode estar falsamente normal), a homocisteína (que aumenta quando temos deficiência de vitamina B12 e ácido fólico) e o ácido metilmalônico, que aumenta na deficiência de B12. Mesmo em deficiências pequenas ou níveis normais mas na faixa inferior, aconselho suplementar a vitamina B12, devido aos riscos de não fazê-lo. E como muitas vezes a absorção está comprometida, a reposição deve ser feita com a vitamina B12 injetável ou, como prefiro, por via sublingual. Já vi pacientes  com deficiência de vitamina B12 que ficaram durante anos sendo tratados como depressivos e melhoraram rapidamente com a reposição. (Quadros EV. Advances in the understanding of cobalamin assimilation and metabolism. Br J Haematol. 2010 Jan;148(2):195-204.; Hanna S, Lachover L, Rajarethinam RP. Vitamin b(12) deficiency and depression  in the elderly: review and case report. Prim Care Companion J Clin Psychiatry. 2009;11(5):269-70. Herrmann W, Obeid R. Causes and early diagnosis of vitamin B12 deficiency. Dtsch Arztebl Int. 2008 Oct;105(40):680-5; Carmel R. Biomarkers of cobalamin (vitamin B-12) status in the epidemiologic setting: a critical overview of context, applications, and performance characteristics of cobalamin, methylmalonic acid, and holotranscobalamin II. Am J Clin Nutr. 2011 Jul;94(1):348S-358S. )

Concluindo, a “epidemia” de depressão pode esconder vários outros problemas, muitos gerados pelo estilo de vida contemporâneo. A alimentação rica em carboidratos de alto índice glicêmico e baixa quantidade de nutrientes (conhecida como junk food), aliada ao abuso de medicamentos para diminuir a acidez do estômago,  estão ajudando a criar o que parece ser essa “epidemia”. E o tratamento desses pacientes com antidepressivos somente mascara o problema, adiando o tratamento da doença de base. A falta do tratamento adequado pode levar ao diabetes (e todas as suas conseqüências) ou lesões cerebrais irreversíveis.

Emagrecer é fácil?

Até o ano passado, se alguém quisesse me encontrar em uma multidão, era muito fácil. Era só procurar o gordo. Agora, 25 quilos mais magro, já não vai ser fácil de me achar levando-se em conta somente meu perfil. Por isso resolvi escrever este post, para discutir um pouco mais da obesidade, das conseqüências e do seu tratamento.

Em 1997, durante um congresso internacional na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, um médico brasileiro me disse: “Paulo, como nós podemos estudar tanto, ajudar tanta gente e continuarmos gordos. Temos que dar um jeito de emagrecer!”

Essa frase ficou martelando na minha cabeça nesses anos todos.

Em 2010, durante um atendimento a um paciente antigo, ele me disse: “Dr. Paulo, o senhor. está muito gordo. Seus pacientes vêm aqui para procurar saúde, eles não podem encontrar um médico gordo desse jeito. Agradeci a sinceridade do paciente e respondi “M, da próxima vez que o senhor vier ao consultório eu não estarei mais gordo”. E cumpri a promessa.

Vamos começar com 3 frases importantes, frases “de gordo”:

– Quero emagrecer para comer as coisas que tenho vontade.

– Não me imagino sem poder comer minha comida favorita.

– Meu maior prazer é quando como uma comida bem gostosa.

Se você se identificou com as frases acima, é bom começar a pensar em abandonar esses dogmas, senão vai continuar gordo, ou vai emagrecer e engordar de novo. Este artigo é para quem está disposto a mudar e emagrecer. Eu, por exemplo, engordei bastante durante a fase preparatória para a defesa do doutorado, 13 anos atrás (época do encontro com meu colega em Nova Iorque), e me mantive gordo até o final do ano passado. Minha alimentação foi ótima durante esses anos, baseada em verduras, legumes, carne e frutas, já há alguns anos parei completamente com as bebidas alcoólicas (com exceção de um brinde de final de ano e alguns pequenos goles para experimentar algum vinho especial), e não me lembro qual foi a última vez que comi algum derivado de trigo, batata ou açúcar. Também tomo bastante sol (sem filtro solar), já que a vitamina D está relacionada à obesidade (Vilarrasa N, Vendrell J, Maravall J, Elío I, Solano E, San José P, García I, Virgili N, Soler J, Gómez JM. Is plasma 25(OH) D related to adipokines, inflammatory cytokines and insulin resistance in both a healthy and morbidly obese population? Endocrine. 2010 Oct;38(2):235-42). Então, por que continuava gordo?

Antes de começar discutir as causas da obesidade, vale a pena falar um pouco da cirurgia bariátrica (as famosas cirurgias para emagrecer), geralmente baseadas na retirada ou diminuição de parte do estômago. Se alguém por acaso quiser seguir esse caminho “fácil”, saiba que vai ter problemas importantes de saúde para o resto da vida. Como o estômago é essencial para a absorção de alguns nutrientes (como vitamina B12, Ferro e ácido fólico), a maioria dos pacientes vai ter que repor esses nutrientes para sempre, muitas vezes na forma injetável. Portanto, é trocar um problema por outro, que a longo prazo pode ser ainda pior. Eu nunca me submeteria a essa cirurgia, que em minha opinião deveria ser indicada para somente para casos extremos. (Muñoz M, Botella-Romero F, Gómez-Ramírez S, Campos A, García-Erce JA. Iron deficiency and anaemia in bariatric surgical patients: causes, diagnosis and proper management. Nutr Hosp. 2009 Nov-Dec;24(6):640-54.   Salameh BS, Khoukaz MT, Bell RL. Metabolic and nutritional changes after bariatric surgery. Expert Rev Gastroenterol Hepatol. 2010 Apr;4(2):217-23).

Dito isso podemos começar discutir a obesidade.

Há basicamente três causas mais comuns para a obesidade:

– As causas hormonais, em especial as disfunções da tireóide.

– A resistência à insulina.

– A compulsão alimentar.

Muitas vezes duas ou três causas citadas acima são combinadas, ou seja, é muito comum a pessoa ter ao mesmo tempo compulsão alimentar e resistência à insulina. É essencial um acompanhamento médico para qualquer tratamento para emagrecer. Vou discorrer um pouco sobre cada uma delas.

1. Diminuição da função da tireóide. Como a principal função da tireóide é regular o metabolismo, a relação entre obesidade e diminuição da tireóide já foi bem investigada, embora em obesos mórbidos (os extremamente gordos, com índice de massa corpórea acima de 40)  ainda há controvérsias (Rotondi M, Leporati P, La Manna A, Pirali B, Mondello T, Fonte R, Magri F, Chiovato L. Raised serum TSH levels in patients with morbid obesity: is it enough to diagnose subclinical hypothyroidism? Eur J Endocrinol. 2009 Mar;160(3):403-8). O tratamento consiste basicamente de reposição de hormônios da tireóide, embora seja possível tratar de outras formas, como através da acupuntura, fitoterapia e homeopatia (Shen M, Qi X, Huang Y, Lü Y, Cai W. Effects of acupuncture on the pituitary-thyroid axis in rabbits with fracture. J Tradit Chin Med. 1999 Dec;19(4):300-3. Hu G, Chen H, Hou Y, He J, Cheng Z, Wang R. A study on the clinical effect and immunological mechanism in the treatment of Hashimoto’s thyroiditis by moxibustion. J Tradit Chin Med. 1993 Mar;13(1):14-8. Schmidt JM, Ostermayr B. Does a homeopathic ultramolecular dilution of Thyroidinum 30cH affect the rate of body weight reduction in fasting patients? A  randomised placebo-controlled double-blind clinical trial. Homeopathy. 2002 Oct;91(4):197-206. Parmar HS, Kar A. Possible amelioration of atherogenic diet induced dyslipidemia, hypothyroidism and hyperglycemia by the peel extracts of Mangifera indica, Cucumis melo and Citrullus vulgaris fruits in rats. Biofactors. 2008;33(1):13-24). De qualquer forma, se a questão for somente essa, basta fazer voltar os níveis normais de hormônios da tireóide no sangue para que o paciente, se não tiver problemas na dieta, voltar ao peso normal.

2. Resistência à insulina. Infelizmente no nosso país (e em outros também), o consumo de produtos de trigo (pão, massas, biscoitos, entre outros) e açúcar são a base da alimentação. Como pode existir um café-da-manhã sem um pãozinho? Fico espantado como em festas, ou mesmo nos cofee-breaks de eventos médicos não há um só alimento sem carboidratos. Um misto de pães, bolachas, torradas, salgados (quase sempre cobertos de farinha e fritos ou assados), acabam se transformando em “comida gostosa” (e muito ruim para a saúde). Sobremesa significa açúcar. Sucos são adoçados com açúcar, e refrigerantes são servidos durante as refeições. Essas substâncias são conhecidas como hidratos de carbono, ou carboidratos.

Os carboidratos são digeridos até açúcares, como a glicose e a frutose. Há carboidratos “melhores ou piores”, ou seja, há carboidratos que não provocam o aumento muito grande de glicose no sangue. Alguns dos piores foram citados acima, como a farinha de trigo e o açúcar. O aumento constante da glicose no sangue acaba provocando um problema chamado resistência à insulina, ou seja, a insulina que deveria levar a glicose para dentro das células com o objetivo de transforma-la em energia, deixa de funcionar corretamente (Roberts CK, Liu S. Effects of glycemic load on metabolic health and type 2 diabetes mellitus. J Diabetes Sci Technol. 2009 Jul 1;3(4):697-704).

O número de diabéticos nos EUA tem crescido assustadoramente, e há projeções que em 40 anos quase 30% dos americanos estarão diabéticos (Boyle JP, Thompson TJ, Gregg EW, Barker LE, Williamson DF. Projection of the year 2050 burden of diabetes in the US adult population: dynamic modeling of incidence, mortality, and prediabetes prevalence. Popul Health Metr. 2010 Oct 22;8:29). A principal causa do diabetes (a do tipo 2, o diabetes mais comum) é a  resistência à insulina,

A glicose  não pode ficar “sobrando” no sangue (diabetes), por isso o pâncreas produz insulina, que vai dispor a glicose para as células do corpo fabricarem energia (principalmente as células musculares)( Choi K, Kim YB. Molecular mechanism of insulin resistance in obesity and type  2 diabetes. Korean J Intern Med. 2010 Jun;25(2):119-29).

Hoje em dia a obesidade também faz parte de uma “doença” (não é especificamente uma doença mas um conjunto delas), chamada de “síndrome metabólica”. A síndrome metabólica consiste basicamente de hipertensão, aumento da resistência à insulina, aumento das gorduras no sangue (colesterol, triglicérides) e obesidade. A Síndrome metabólica é uma das principais causas das doenças cardiovasculares como o infarto do miocárdio (“ataque cardíaco”) e do acidente vascular cerebral (“derrame”). Portanto estar gordo com resistência à insulina aumentada é um passo para morrer mais cedo. (Mottillo S, Filion KB, Genest J, Joseph L, Pilote L, Poirier P, Rinfret S, Schiffrin EL, Eisenberg MJ. The metabolic syndrome and cardiovascular risk a systematic review and meta-analysis. J Am Coll Cardiol. 2010 Sep 28;56(14):1113-32). O tratamento da sindrome metabólica é mais complexo, e envolve medicação, dieta pobre em carboidratos e aumento da atividade física (exercícios). (Isharwal S, Misra A, Wasir JS, Nigam P. Diet & insulin resistance: a review &  Asian Indian perspective. Indian J Med Res. 2009 May;129(5):485-99. Brand-Miller J, McMillan-Price J, Steinbeck K, Caterson I. Dietary glycemic index: health implications. J Am Coll Nutr. 2009 Aug;28 Suppl:446S-449S. Kouki R, Schwab U, Lakka TA, Hassinen M, Savonen K, Komulainen P, Krachler B, Rauramaa R. Diet, fitness and metabolic syndrome – The DR’s EXTRA Study. Nutr Metab Cardiovasc Dis. 2010 Dec 24)

3. Por fim, vou falar da compulsão alimentar, e neste item vou falar um pouco da minha experiência pessoal. Essa é uma área bem mais complicada para o tratamento médico, e para compreendê-la é necessário “sentir na pele”. Muitos colegas tratam a compulsão alimentar com antidepressivos ou anorexígenos (remédios para tirar a fome), mas o mais importante é a consciência e a mudança da postura em relação à comida.

Muitos gordinhos foram superalimentados quando criança, e muitos vêm de famílias onde a comida tem uma importância fundamental. Nestas famílias o “carinho” é feito através da comida, onde a mãe oferece a “comida gostosa” como forma de agradar a criança. Infelizmente essa relação carinho/comida faz com que o indivíduo acabe gostando de comer, e para se sentir gostado, ingere uma quantidade enorme de comida. Esse caminho acaba levando a uma espécie de doença, onde em cada dificuldade da vida, a ansiedade é combatida colocando-se mais e mais comida dentro do estômago, como forma de compensação. E a pessoa vai ficando cada vez mais gorda, se sentindo pior, e necessitando de mais comida, que a exemplo das drogas (como a cocaína ou a heroína) produz um bem estar durante alguns minutos, mas que é seguido de culpa e diminuição da auto-estima. E se essa atitude não for combatida como um vício em drogas, nenhum tratamento será eficaz, com a recaída levando a uma nova crise, onde a pessoa emagrece 10 e engorda 20 quilos.

Eu pessoalmente combati esse problema, que era a minha principal causa de continuar gordo. Alguns alimentos como a castanha-de-cajú e o requeijão eram problemáticos. Eu não podia nem experimenta-los que desencadeavam a compulsão. Tomei a resolução que iria abandonar estes alimentos para o resto da vida. Mas o mais importante foi entender que enquanto eu me rendesse ao mecanismo de “prêmio-recompensa” da comida, eu estaria perdido e gordo para sempre. E acabei entendendo que ou eu seria magro ou comeria comida gostosa, e tive que escolher. E escolhi ser magro.

O tratamento que fiz envolveu alterações da quantidade e da qualidade da comida, o uso de medicamentos da Medicina Tradicional Chinesa (compostos de ervas) e acupuntura, que eu mesmo me apliquei nos pontos para corrigir o metabolismo. Eu também nunca parei de fazer exercícios físicos, mas a partir do momento que iniciei a dieta mantive a regularidade, nadando pelo menos 3 vezes por semana.

O resultado foi um emagrecimento de 25 quilos em 3 meses, sem perda muscular. Hoje estou bem mais feliz, porque estou mais magro, e também porque me libertei da prisão que é a “refeição por prazer”. É uma liberdade que nunca soube que existia.

Vegetais não são sempre saudáveis – os antinutrientes.

O título acima pode soar como um atentado ao bom senso, mas é verdade. Diversos vegetais considerados “saudáveis” podem na realidade funcionar como autênticos “venenos”, porque contém substâncias que nos impedem de conseguir o aproveitamento dos alimentos, substâncias essas conhecidas como “antinutrientes”. Infelizmente a noção de comida saudável na nossa sociedade vai à contramão das pesquisas científicas sobre o assunto.

Felizmente a noção de que devemos nos alimentar melhor está aumentando. Até as cadeias de fast food estão investindo em propagandas com alimentos pretensamente saudáveis.

A noção atual é que uma alimentação saudável é feita de pouca carne e gordura animal, e abundância de cereais integrais, leguminosas e verduras. Mas muitas vezes, dependendo de como esses alimentos são consumidos, podem se tornar uma fonte de mais problemas, e até desnutrição.

Vamos começar com a soja. Muita gente considera saudável o consumo da soja (vejam, por exemplo, esse site). Há no mercado uma gama de alimentos a base de soja, incluindo inclusive fórmulas infantis para bebês com base na soja.

Uma dieta saudável necessita de proteínas, que fornecem aminoácidos essenciais, fundamentais para o funcionamento do nosso organismo. Para podermos digerir proteínas, o pâncreas produz algumas enzimas, como a tripsina (que também é responsável por outra enzima que digere a carne, a quimotripsina). A soja é o vegetal que contém a maior quantidade de inibidores de tripsina, ou seja, a soja tem substâncias que impedem-nos de absorver as proteínas. Os inibidores de tripsina não inibem somente a tripsina, mas também outras enzimas digestivas como a quimotripsina, a elastase e várias outras enzimas.

A quantidade de inibidores de tripsina na soja integral chega a 27,2 mg em cada grama de soja, segundo alguns trabalhos científicos. Transformar a soja em pó não diminui a quantidade de inibidores de tripsina, pelo contrário, os inibidores ficam mais concentrados. A quantidade de inibidores de tripsina é tão grande que animais alimentados com dietas com base na soja ficam com hipertrofia do pâncreas (o pâncreas cresce para produzir mais enzimas).

Há algumas formas de soja que praticamente não contém inibidores de tripsina, como o tofu e o molho de soja (embora no molho de soja costuma-se acrescentar açúcar e glutamato monossódico, que não são saudáveis). A farinha de soja torrada contém bem menos inibidores, mas ainda uma quantidade considerável (até 9,4 mg por grama). O missô contém 4,1 mg por grama de inibidores de tripsina.

As fórmulas infantis com base na soja contêm menos quantidade de inibidores, 2,7 mg por grama de pó. Mas o impacto desses antinutrientes em uma criança em crescimento ainda está para ser avaliado. (Gilani GS, Cockell KA, Sepehr E. Effects of antinutritional factors on protein digestibility and amino acid availability in foods. J AOAC Int. 2005 May-Jun;88(3):967-87).

Outros antinutrientes importantes são os fitatos, ou ácido fítico. Os fitatos são conhecidos por diminuir a disponibilidade de diversos nutrientes, em particular o zinco (um mineral muito importante para o funcionamento do organismo, inclusive para a digestão de outros nutrientes) e o cálcio, diminuindo também a absorção de proteínas e aminoácidos. O maior problema com os fitatos é que eles se ligam a minerais e proteínas, produzindo complexos insolúveis (que não dissolvem), impedindo-os de serem absorvidos.

Os fitatos são os “armazéns” de fósforo nas sementes dos cereais e das leguminosas, mas esse fósforo não está disponível quando consumimos esses alimentos, ficando “guardados” até a germinação da nova planta. Portanto, as verduras praticamente não têm fitatos, enquanto que as sementes de cereais, legumes e oleoginosas são as que contêm a maior quantidade, sendo que a soja é a semente com maior quantidade. O lobby de diminuir a quantidade de gorduras na dieta e aumentar os grãos integrais provocou um aumento de fitatos na dieta. (Martínez Domínguez B, Ibáñez Gómez MV, Rincón León F. Ácido Fítico: Aspectos nutricionales e implicaciones analíticas. Arch Latinoam Nutr. 2002 Sep;52(3):219-31.).

Os fitatos aparecem também na casca do arroz, no cotilédone da ervilha e no germe do milho. Os fitatos ligam-se a diversos minerais além do zinco e cálcio já falados, como o potássio, o ferro, o magnésio e o manganês, o que pode ocasionar uma grande diminuição da absorção desses nutrientes.

O hábito de deixar de molho em água, antes do cozimento,  o arroz e o feijão é bem saudável, já que reduz o índice de fitatos em torno de 20%. Deixar de molho a farinha de milho reduz a quantidade de fitatos em 50%. E se deixarmos de molho de um dia para o outro, para promover a fermentação natural, a quantidade de fitatos é reduzida em 90%. Comer brotos de sementes (como brotos de feijão) também elimina os fitatos, já que a planta produz enzimas (fitase) para dispor do fosfato durante o crescimento. O controle dos antinutrientes é fundamental na alimentação de crianças, em particular nas subnutridas. (Michaelsen KF, Hoppe C, Roos N, Kaestel P, Stougaard M, Lauritzen L, Mølgaard C, Girma T, Friis H. Choice of foods and ingredients for moderately malnourished children 6 months to 5 years of age. Food Nutr Bull. 2009 Sep;30(3 Suppl):S343-404)

Alguns vegetais como o espinafre contém também uma grande contidade de oxalatos, que impedem-nos de absorver minerais como o ferro e o cálcio. (Miller GD, Jarvis JK, McBean LD. The importance of meeting calcium needs with foods. J Am Coll Nutr. 2001 Apr;20(2 Suppl):168S-185S). Portanto esse vegetal, apesar de rico em ferro e cálcio, não disponibiliza esses nutrientes, devido ao antinutriente oxalato.  Se o personagem Popeye existisse, com certeza ficaria mais fraco e não mais forte após comer sua porção de espinafre enlatado.

Finalmente temos as lectinas, proteínas vegetais que se ligam a carboidratos (açúcares), e são antinutrientes capazes inclusive de fazer  “grudar” os glóbulos vermelhos do sangue (se você não sabe o que significa isso para a saúde, clique aqui). As lectinas são reservas de proteínas e podem funcionar com inseticidas naturais (há pesquisas sobre o uso de lectinas contra diversas pragas) e protegem as plantas contra agressões externas, desde micróbios, insetos ou animais. As lectinas são muito resistentes, e não são destruídas pelas enzimas da digestão nem pela acidez do estômago, resultando em lesões nas células e tecidos do sistema estômago e intestinos, interferindo com a absorção de nutrientes, alterando a flora intestinal e alterando inclusive o sistema imunológico (defesa) dos intestinos. Se consumida em quantidade alta, as lectinas provocam doenças e diminuem o crescimento de animais ou humanos que a consumiram. Há relatos inclusive de intoxicação aguda em humanos que consumiram a lectina através de uma espécie de feijão vermelho.

Estudos científicos já analisaram lectinas tóxicas do feijão, da soja, da ervilha, do gérmen de trigo, da jaca e do arroz. Diversas outras plantas que consumimos normalmente contém lectinas, como a cenoura, o milho, o alho, o amendoim, a beterraba, o chá, a salsinha, o orégano, além de frutas como nas cerejas. Portanto, é praticamente impossível não termos contato com as lectinas. Para evitar problemas, devemos evitar comer plantas com alta concentração de lectinas cruas ou pouco cozidas, e tomar muito cuidado com quantidades exageradas de sementes (como feijão) e cereais (como o trigo).( Vasconcelos IM, Oliveira JT. Antinutritional properties of plant lectins. Toxicon. 2004 Sep 15;44(4):385-403) (Sharon N, Lis H. History of lectins: from hemagglutinins to biologicalrecognition molecules. Glycobiology. 2004 Nov;14(11):53R-62R)

Após todos esses dados, vemos que os vegetais às vezes funcionam como vilões. Mas toda alimentação saudável deve ser baseada em vegetais.  Então o que fazer para ter uma alimentação saudável? A primeira atitude é evitar alimentos processados, é bom desconfiar de todo alimento que tenha rótulo. Já é difícil ter uma alimentação saudável, e fica muito pior se ingerimos aditivos alimentares. Em segundo lugar, que me perdoem os vegetarianos, é que faça parte da dieta proteínas e gorduras animais, como carne, manteiga, iogurte, coalhada e ovos de aves criadas soltas. Não somos ruminantes, e muitos nutrientes essenciais são encontrados somente em produtos de origem animal. Em terceiro lugar, procure sempre que possível produtos orgânicos, vegetais sem agrotóxicos e carne sem hormônios e antibióticos. Em quarto lugar, não exagere nas sementes (leguminosas e oleoginosas) e cereais, e procure deixar de molho produtos como arroz, feijão, lentilhas e farinha de trigo ou milho. E por último, há a vitamina D, cuja maior fonte não é alimentar, é o sol (se ainda não leu, leia aqui e aqui)

As ervas medicinais realmente funcionam?

Recentemente um médico conhecido atacou a fitoterapia em um programa de grande audiência na televisão brasileira. Não vi o programa, mas muitos pacientes indignados me chamaram atenção a respeito.

Criticar algo que não se conheça a fundo é muito complicado. Quantas vezes sou questionado durante a minha prática clínica a respeito de tratamentos que desconheço ou conheço superficialmente, e tenho que responder “não sei”. Por mais que estudemos, sempre haverá brechas enormes no conhecimento, mesmo na nossa área de estudo. Imagine então fora do nosso foco, quantas coisas deixamos de aprender.

Em relação à fitoterapia, o universo de pesquisas científicas é muito grande. Somente no índice “Pubmed”, da biblioteca nacional de medicina dos EUA, estão relacionadas 29.746 publicações, ou seja existem milhares de experimentos científicos realizados por centenas de instituições espalhadas pelo mundo.

Minha primeira observação é:  Acredito que a maioria das pesquisas em relação à fitoterapia são realizadas de forma equivocada. Muitas pesquisas são realizadas da mesma maneira que os remédios convencionais, ou seja, verificando se o medicamento pode “matar a doença”. Quem acompanha este blog sabe que a minha opinião é que deveria se pesquisar mais  se o medicamento é capaz de melhorar a saúde ao invés de curar a doença.

Vou citar alguns estudos recentes a respeito da fitoterapia. Por exemplo, vários componentes das plantas estão sendo testados em fase pré-clinica ( em animais de experimentação) e clínica (em humanos)  para prevenção do câncer. Entre os componentes testados temos a genisteina (da soja), o licopeno (do tomate), a brassinina (de vegetais como o repolho, a couve ou a mostarda), o sulforafano (do aspargo), o indol-3-carbinol (do brócolis), e o resveratrol (da uva ). Como esses componentes previnem o câncer, com certeza melhoram a saúde. (Gullett NP, Ruhul Amin AR, Bayraktar S, Pezzuto JM, Shin DM, Khuri FR, Aggarwal BB, Surh YJ, Kucuk O. Cancer prevention with natural compounds. Semin Oncol. 2010 Jun;37(3):258-81).

Muitos medicamentos utilizados na medicina tradicional chinesa são comprovadamente benéficos para melhorar a qualidade de vida do paciente com câncer. Em relação à imunidade, várias ervas, como a raiz do Astrágalo (uma erva comum em vários compostos da medicina chinesa), melhoram bastante o sistema imune dos pacientes, aumentando inclusive a capacidade de defesa da imunidade celular (células que destroem os agressores), além de diminuir os efeitos deletérios da quimioterapia. Outras ações de algumas ervas da medicina chinesa são a melhora da sobrevivência dos pacientes que tomam quimioterapia. As pesquisas incluem meta-análises (trabalhos que analisam vários estudos científicos detalhadamente,  considerado a melhor evidência científica para o médico tomar uma conduta). (Cho WC. Scientific evidence on the supportive cancer care with Chinese medicine. Zhongguo Fei Ai Za Zhi. 2010 Mar;13(3):190-4; Wu T, Munro AJ, Guanjian L, et al. Chinese medical herbs for chemotherapy side effects in colorectal cancer patients. Cochrane Database Syst Rev, 2005(1): CD004540; Shu X, McCulloch M, Xiao H, et al. Chinese herbal medicine and chemotherapy in the treatment of hepatocellular carcinoma: a meta-analysis of randomized controlled trials. Integr Cancer Ther, 2005, 4(3): 219-229.)

A mesma erva (raiz do Astrágalo) que ajuda pacientes com câncer, também melhora os pacientes com doenças infecciosas graves, como a miocardite viral (Liu ZL, Liu ZJ, Liu JP, Yang M, Kwong J. Herbal medicines for viral myocarditis. Cochrane Database Syst Rev. 2010 Jul 7;7:CD003711). O que significa isso? Para um pesquisador que não está acostumado com o raciocínio da melhora da saúde, esses dados parecem sem sentido. A erva é boa para tratar o câncer ou é antiviral? A resposta é simples: A erva é boa para ajudar o paciente, não para tratar a doença. Pesquisas relacionadas ao Astrágalo demonstraram que esse fitoterápico melhora muito a resposta imunitária, aumentando inclusive a expressão de genes, melhorando o processo inflamatório (sem ser antiinflamatório, ou seja, ajudando o nosso organismo a inflamar corretamente). (Denzler KL, Waters R, Jacobs BL, Rochon Y, Langland JO. Regulation of inflammatory gene expression in PBMCs by immunostimulatory botanicals. PLoS One.  2010 Sep 3;5(9):e12561)

Portanto, o uso de remédios naturais, como na fitoterapia, tem que ser baseado na melhora da qualidade da saúde e não se a erva vai ser “anti-cancer”, “antiinflamatória”, ou “antibiótica”, embora haja milhares de estudos nesse sentido. Na maioria das vezes não é “matando o câncer” que vamos resolver o problema do paciente oncológico, e sim melhorando as suas defesas. E com a saúde melhor, o nosso organismo pode se defender corretamente.

Um dia esse remédio faz bem, em outro esse mesmo remédio faz mal

Não é incomum escutarmos críticas à medicina convencional, e dentro das críticas mais comuns está o fato de que, medicamentos antes prescritos pela maioria dos médicos tornaram-se, do dia para a noite, proscritos. Essa semana aconteceu de novo.

Muitos se surpreenderam com a notícia de que suplementos de cálcio aumentam a chance de um infarto do miocárdio (ataque do coração) (clique e leia a notícia e o artigo). Até há pouco tempo, era consenso entre os médicos que a reposição de hormônios na menopausa protegia a mulher de um infarto do miocárdio, mas agora se sabe que além de não proteger a mulher, a terapia de reposição hormonal aumenta a chance de acidente vascular cerebral (derrame) e de tromboembolismo (coagulação do sangue dentro de veias e artérias)(Denti L. The hormone replacement therapy (HRT) of menopause: focus on cardiovascular implications. Acta Biomed. 2010;81 Suppl 1:73-6). Descobriu-se recentemente que muitos antiiflamatórios , antes considerados seguros e vendidos abertamente sem receita médica por anos,  também aumentam a chance de problemas cardiovasculares como o infarto do miocárdio (Ray WA, Varas-Lorenzo C, Chung CP, Castellsague J, Murray KT, Stein CM, Daugherty JR, Arbogast PG, García-Rodríguez LA. Cardiovascular risks of nonsteroidal antiinflammatory drugs in patients after hospitalization for serious coronary heart disease. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2009 May;2(3):155-63).

O que está acontecendo? Porque remédios antes considerados seguros e ideais estão sendo condenados?

Em relação a reposição hormonal, o raciocínio que leva a maioria dos médicos receitarem os hormônios é que a incidência de doenças como osteoporose, acidente vascular cerebral e infarto do miocárdio é muito maior nas mulheres menopausadas do que naquelas que ainda menstruam. Só que há um detalhe, enquanto que os hormônios naturais protegem a mulher contra essas doenças, os hormônios da reposição hormonal aumentam os problemas cardiovasculares (Carswell HV, Macrae IM, Farr TD. Complexities of oestrogen in stroke. Clin Sci (Lond). 2009 Dec 15;118(6):375-89).

E falando em reposição hormonal, é muito fácil entender o que acontece. A reposição de hormônios femininos aumenta o risco de trombose (coagulação intravascular) (Desancho MT, Dorff T, Rand JH. Thrombophilia and the risk of thromboembolic events in women on oral contraceptives and hormone replacement therapy. Blood Coagul Fibrinolysis. 2010 Jun 24). Se os hormônios femininos naturais protegem contra a coagulação dentro dos vasos, e os da reposição pioram, a questão está em como eles alteram a eletrostática do sangue, sendo que do ponto de vista da agregação eritrocitária, hormônios naturais e químicos tem efeitos completamente opostos.

Continuando o raciocínio com o exemplo do cálcio. O cálcio é um mineral muito importante, não só na formação do osso, mas para o funcionamento dos músculos e das células nervosas. O transporte do cálcio é feito pelo sangue, até os músculos e neurônios (células do sistema nervoso). Se por acaso o paciente tiver agregação eritrocitária (hemácias grudadas), a circulação do sangue vai estar comprometida (Baskurt OK. In vivo correlates of altered blood rheology. Biorheology. 2008;45(6):629-38), dificultando o transporte não só do cálcio, como de vários nutrientes. Como já vimos, a agregação eritrocitária é comum em pessoas idosas (Christy RM, Baskurt OK, Gass GC, Gray AB, Marshall-Gradisnik SM. Erythrocyte Aggregation and Neutrophil Function in an Aging Population. Gerontology. 2009). Mas músculos e neurônios precisam de cálcio, logo o organismo acaba mobilizando o cálcio da nossa reserva – o osso. Se o transporte de cálcio está comprometido, a reposição de cálcio não vai resolver o problema da osteoporose, e ainda vai haver mais cálcio para não ser transportado, e mais cálcio para ser depositado na parede das artérias, sendo uma possível causa do aumento do infarto do miocárdio. Confirmando esse raciocínio, um estudo recente relacionou a osteoporose com a deposição de cálcio em artérias e válvulas do coração (Hjortnaes J, Butcher J, Figueiredo JL, Riccio M, Kohler RH, Kozloff KM, Weissleder R, Aikawa E. Arterial and aortic valve calcification inversely correlates with osteoporotic bone remodelling: a role for inflammation. Eur Heart J. 2010 Jul 2.). Os remédios modernos para o  tratamento da osteoporose (conhecido como bifosfonados, sendo o mais conhecido o alendronato) simplesmente prejudicam as células responsáveis pela reabsorção do cálcio, não resolvendo o problema do paciente.

Portanto, quando verificamos que medicamentos como os antiinflamatórios (como o Vioxx entre outros) aumentam o risco de problemas tromboembólicos (Joshi GP, Gertler R, Fricker R. Cardiovascular thromboembolic adverse effects  associated with cyclooxygenase-2 selective inhibitors and nonselective antiinflammatory drugs. Anesth Analg. 2007 Dec;105(6):1793-804), estamos falando do mesmo aspecto dos hormônios e do cálcio: O aumento da agregação eritrocitária.

E o que parece um paradoxo, “um dia o remédio faz bem e no outro faz mal”, simplesmente é resultado de uma falta de estudos em relação aos efeitos dos remédios na saúde. Como não se estuda a influência da carga elétrica da medicação no paciente, acaba-se descobrindo muito mais tarde (e após problemas de saúde gerados pela droga) que a medicação provoca problemas piores do que trata. Isso gera processos e perdas para a indústria farmacêutica.

Há diversos problemas que impedem a indústria farmacêutica investir nesse novo paradigma. Temos pouquíssimos cientistas que entendem da influência das cargas eletrostáticas na saúde. Todo o raciocínio científico, inclusive o modelo mais utilizado na medicina baseada em evidências, estuda quase sempre os efeitos dos medicamentos em sintomas específicos, e não no impacto desses medicamentos na qualidade da saúde.

Não seria melhor (e mais barato) se as pesquisas já começassem com o objetivo de melhorar a saúde? Ainda sonho com uma linha de medicamentos com o objetivo maior de melhorar a saúde dos pacientes, ao invés de retirar os sintomas a qualquer preço.

Portanto está aí uma nova idéia, que acredito que um dia vai nortear a pesquisa científica e o tratamento médico: O uso de medicamentos que comprovadamente melhoram a saúde, alterando a carga eletrostática do sangue para o nível normal (o que significa na grande maioria dos casos diminuição da agregação eritrocitária) e pesquisas básicas cujo tema será como melhorar a saúde. Neste momento muitas doenças crônicas vão deixar de serem crônicas e a qualidade de vida das pessoas vai dar um salto em direção à saúde.