A Consulta Médica

 

           Doutor, estou com uma dor de estômago. Você pode me pedir uma ressonância da barriga?

            Para um médico experiente, a afirmação acima é absurda, quase surreal. Mas para uma boa parte da população, acostumada com consultas de dez minutos onde o médico ouve a queixa e pede exames, pode até parecer certo. Mas não é. Então, talvez, tenhamos que rever como é feito o diagnóstico e o tratamento médico.

 

            A primeira coisa que o médico escuta é a queixa do paciente que o trouxe ao consultório ou ao hospital. No caso citado é a dor, mas não no estômago, mesmo porque nem o médico nem o paciente fazem idéia ainda de qual é o órgão acometido, mas sim a região da pele onde a dor é referida. No caso, provavelmente é na pele por cima onde fica o estômago, que o médico chama de “epigástrio”.  Mas tem um aspecto muito importante que só a sensibilidade do médico pode avaliar: O sofrimento do paciente, o quanto que a qualidade de vida do paciente está comprometida e as dificuldades para realizar os eventos cotidiano. Ou seja, o médico está lá para ajudar aquele que está sofrendo.

 

Neste momento começa a passar pela cabeça do médico os diagnósticos mais comuns, como gastrite, esofagite, cólica biliar (da vesícula), infarto do miocárdio (ataque do coração – sim, pode apresentar somente uma dor no epigástrio) entre outros. Muitos não sabem que um problema da vesícula biliar pode até apresentar dor no ombro, e ser tratado como um problema articular ou muscular quando, na realidade, o problema é muito maior.

 

Depois o médico vai perguntar desde quando o sintoma apareceu, quando melhora ou quando piora, e outros sintomas associados como enjôo, dor de cabeça, cólica menstrual, hábitos intestinais, sangramentos, entre outros e os diagnósticos diferenciais vão abrindo na cabeça do médico. Os diagnósticos só podem ser feitos se o médico pensar neles.

 

Neste momento o médico já tem algumas hipóteses diagnósticas que vão aos poucos sendo descartadas ou reforçadas com a anamnese, a conversa que se tem com o médico.

 

A seguir, a conversa continua com as doenças e sintomas que o paciente tem ou já teve, os remédios que toma, as doenças familiares, e tudo isso ajuda a formar um panorama de quem é aquela pessoa que está na sua frente, do ponto de vista médico. Se o médico tem uma formação em medicina chinesa ou em homeopatia, por exemplo, ele acrescentará perguntas que o ajudarão na hora do tratamento.

 

Depois disto o médico deve realizar o exame físico. É impossível fazer medicina sem examinar, sem olhar cuidadosamente o paciente, sem prestar atenção nos sinais que ajudarão a entender o sofrimento de quem está ali, como por exemplo  se está desidratado, se o pulso está rápido ou lento, ou mesmo até a cor alterada da pele, por exemplo  amarelada (icterícia) e apresentar no peito algumas veias em forma de aranha, que indicam um problema grave do fígado. Sem examinar, fazer diagnóstico é impossível. Alguém pode até achar uma doença em algum exame, mas pode até não ser o problema principal. Isso é o que chamamos de “achado de exame”, muitas vezes sem importância clínica.

 

Neste momento a tecnologia vem ampliar e ajudar os sentidos do médico. O médico deve aferir a pressão arterial, e alguns instrumentos, como o estetoscópio, vão ampliar o ouvido do médico, fazendo-o escutar sopros no coração, arritmias cardíacas, ruídos intestinais, passagem de ar e sons no pulmão.

 

Recentemente mais uma forma de ampliar os sentidos do médico está sendo utilizado, a termografia. A termografia é um tipo de fotografia digital,  que mostra os raios infravermelhos, ou seja, o calor, assim como aqueles óculos militares para enxergar no escuro. Em relação à medicina, o médico vai procurar áreas no corpo onde há mais ou menos calor, e isso vai ajudá-lo nos diagnósticos diferenciais. Futuramente, acredito, que o termógrafo vai ser tão comum quanto o estetoscópio para o médico.

 

Vejam, por exemplo, uma termografia com um ponto mais quente na região do fígado (o qual chamamos de hipocôndrio direito). Isso mostra que, alí por baixo da pele, na área correspondente ao fígado, tem algo que está fazendo  a pele ficar mais quente pois está irradiando mais raios infravermelhos.

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Depois de toda a anamnese (conversa) e exame físico o médico já tem algumas hipóteses diagnósticas, e tem uma idéia  como está o emocional do paciente, de como são seus hábitos de vida, e o que o está fazendo sofrer. Ou seja, o “nome da doença”, ou o diagnóstico médico, é importante, mas é somente uma parte da consulta.

 

Só depois de tudo isto chega o momento dos exames complementares que podem incluir exames de sangue, urina, fezes,  exames de imagem como ultra-sonografia, tomografia ou ressonância magnética, eletrocardiograma, entre outros. Mas os exames, como o nome diz, são complementares, não servem para nada sem os passos citados.

 

E finalmente, após anamnese, exame físico, exames complementares, avaliação dos hábitos de vida, o médico está apto, junto com o paciente, a decidir o que podem juntos fazer para que o paciente melhore de saúde e de qualidade de vida.

 

A última coisa é o tratamento, que pode incluir (mas nem sempre) remédios, mudanças de estilo de vida, mudanças alimentares, ajuda de outros profissionais de saúde como farmacêuticos, nutricionistas, naturólogos e fisioterapeutas. E se o tratamento incluir medicamentos com efeitos colaterais, isto deverá ser alertado.

 

Por fim, o bem estar do paciente é o principal objetivo do médico.

 

Mas porque escrevi este texto? Porque estou com a impressão de que alguns médicos, pacientes e outros profissionais de saúde não sabem, não conhecem ou esqueceram o que é uma consulta médica.