Depressão: A “falsa”epidemia do século XXI?

Imagine você passar anos sabendo que você está com depressão, vendo a vida passar como se somente os outros fossem convidados para a “festa da vida”. Os remédios ajudaram no início do quadro, mas agora, mesmo tomando os remédios em altas doses, você se sente cada vez pior, cansado(a), sem ânimo de fazer nada. Daí descobre que a causa do seu problema era uma doença física que não tinha sido diagnosticada.

O diagnóstico de depressão está cada vez mais presente, é difícil o dia que não recebo no consultório pacientes com esse diagnóstico, a maioria tomando os antidepressivos chamados inibidores seletivos de recaptação de serotonina . O sofrimento desses pacientes é patente, e o diagnóstico foi feito somente através dos sintomas, sem uma investigação clínica mais profunda.

É como se estivéssemos em uma epidemia contemporânea, e o que é pior, os remédios até ajudam no início do tratamento, mas com o passar do tempo, muitos pacientes continuam deprimidos, apesar da medicação. Mas será que todos estão com depressão de origem puramente psíquica?

Vejamos alguns critérios diagnósticos da depressão, segundo o DSM-IV (O manual psiquiátrico utilizado para diagnosticar os problemas mentais): “Estado deprimido”, “Dificuldade de concentração”, “Insônia ou sonolência”, “Perda ou ganho significativo de peso” “Diminuição de energia, cansaço, fadiga”. O maior problema é que esses sintomas podem estar ligados a doenças físicas,  E isso significa que o tratamento dessas doenças pode fazer toda a diferença no paciente “deprimido”.

Existem três doenças muito prevalentes que podem levar a sintomas muito semelhantes a uma depressão de origem psíquica:

– Hipotireoidismo.

– Resistência à Insulina.

– Deficiência de Vitamina B12.

O Hipotireoidismo é uma deficiência do funcionamento da glândula tireóide, que mesmo quando as alterações glandulares são mínimas (hipotireoidismo subclínico), mais de 50% dos pacientes apresentam depressão (ROMALDINI, João Hamilton; SGARBI, José Augusto  and  FARAH, Chady Satt. Subclinical thyroid disease: subclinical hypothyroidism and hyperthyroidism. Arq Bras Endocrinol Metab [online]. 2004, vol.48, n.1 [cited  2011-12-20], pp. 147-158 . http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302004000100016.). Felizmente a maioria dos médicos pedem exames da função tireoideana quando deparam-se com pacientes deprimidos, e essa condição é rapidamente diagnosticada, o que não acontece com as outras duas outras condições citas acima.

A resistência à insulina é outra das possíveis causas da depressão. Para entender a depressão nessa condição, vamos recordar o que acontece com o metabolismo dos carboidratos. Quando comemos os carboidratos, eles são digeridos em açúcares como a glicose. A glicose não pode ficar “sobrando” no sangue (precisa ir para as células ajudar na formação de energia, além de ser depositada nas  células do fígado ou da gordura). A insulina, fabricada no pâncreas, é a principal responsável pela mobilização da glicose. A secreção de insulina é bem complexa, em “ondas” (Seino S, Shibasaki T, Minami K. Dynamics of insulin secretion and the clinical implications for obesity and diabetes. J Clin Invest. 2011 Jun 1;121(6):2118-25 ), e o consumo exagerado de carboidratos faz com que  a insulina pare de funcionar, gerando a resistência à insulina, caracterizando a pré-diabetes (Roberts CK, Liu S. Effects of glycemic load on metabolic health and type 2 diabetes mellitus. J Diabetes Sci Technol. 2009 Jul 1;3(4):697-704 ). A resistência à insulina, junto com a obesidade e a hipertensão formam o que chamamos de “síndrome metabólica”,  uma das maiores causas de doenças como infarto do miocárdio (ataque do coração) e acidente vascular cerebral (derrame). Mas, como nesses casos a glicose não gera energia, isso também gera cansaço, fraqueza, desânimo, sintomas idênticos ao da depressão. Vários trabalhos científicos relatam os sintomas depressivos em pacientes com síndrome metabólica (Akbaraly TN, Ancelin ML, Jaussent I, Ritchie C, Barberger-Gateau P, Dufouil C, Kivimaki M, Berr C, Ritchie K. Metabolic syndrome and onset of depressive symptoms in the elderly: findings from the three-city study. Diabetes Care. 2011  Apr;34(4):904-9.; Koponen H, Jokelainen J, Keinänen-Kiukaanniemi S, Kumpusalo E, Vanhala M. Metabolic syndrome predisposes to depressive symptoms: a population-based 7-year  follow-up study. J Clin Psychiatry. 2008 Feb;69(2):178-82.; Kozumplik O, Uzun S. Metabolic syndrome in patients with depressive disorder–features of comorbidity. Psychiatr Danub. 2011 Mar;23(1):84-8.)  O diagnóstico da resistência à insulina não é difícil, basta investigar os níveis de glicose e insulina após ingestão de glicose (curva glicêmica e insulinêmica). A hemoglobina glicada acima de 5,7% também indica uma situação de pré-diabetes. (American Diabetes Association Guidelines, 2009 ). Portanto, antes de iniciar um tratamento com antidepressivo vale a pena investigar se o cansaço e o desânimo não são conseqüência de resistência à insulina, ou mesmo de uma hipoglicemia. Essa condição é extremamente comum e prevalente no nosso meio.

Portanto o hipotireoidismo e o pré-diabetes podem levar aos mesmos sintomas da depressão psíquica. E sem um diagnóstico correto, é possível que uma parte dos pacientes considerados portadores de depressão psíquica estejam com um problema clínico. E tem ainda um outro problema, muito comum, e se não diagnosticado pode levar a conseqüências graves: A deficiência de vitamina B12.

A vitamina B12 é produzida por bactérias e chega ao organismo humano através do consumo de carne de animais que entraram em contato com essas bactérias. A vitamina B12 é absorvida no intestino delgado com a ajuda de uma proteína do estômago conhecida como fator intrínseco e pelo ácido do estômago. Portanto os vegetarianos, aqueles que não tem o estômago (p. ex. cirurgia bariátrica) ou que utilizam remédios que inibem o ácido do estômago, além dos idosos cujo estômago pode estar com atrofia, são mais propensos a essa deficiência. Há algumas pessoas também que possuem deficiência na absorção da vitamina B12. Os sintomas vão desde fraqueza e desânimo até lesões cerebrais irreversíveis, com diminuição na capa de mielina das células do sistema nervoso. O ácido fólico, ou vitamina B9, também costuma estar diminuído nestes casos piorando ainda mais a situação.

O pior é que não é fácil diagnosticar a deficiência de vitamina B12, já que os níveis podem estar quase “normais”,  mas a vitamina celular está baixa. E aqui no Brasil não se dosa a holotranscobalamina, que é a vitamina B12 que funciona nas células. Portanto o que devemos fazer é dosar a vitamina B12 total (que pode estar falsamente normal), a homocisteína (que aumenta quando temos deficiência de vitamina B12 e ácido fólico) e o ácido metilmalônico, que aumenta na deficiência de B12. Mesmo em deficiências pequenas ou níveis normais mas na faixa inferior, aconselho suplementar a vitamina B12, devido aos riscos de não fazê-lo. E como muitas vezes a absorção está comprometida, a reposição deve ser feita com a vitamina B12 injetável ou, como prefiro, por via sublingual. Já vi pacientes  com deficiência de vitamina B12 que ficaram durante anos sendo tratados como depressivos e melhoraram rapidamente com a reposição. (Quadros EV. Advances in the understanding of cobalamin assimilation and metabolism. Br J Haematol. 2010 Jan;148(2):195-204.; Hanna S, Lachover L, Rajarethinam RP. Vitamin b(12) deficiency and depression  in the elderly: review and case report. Prim Care Companion J Clin Psychiatry. 2009;11(5):269-70. Herrmann W, Obeid R. Causes and early diagnosis of vitamin B12 deficiency. Dtsch Arztebl Int. 2008 Oct;105(40):680-5; Carmel R. Biomarkers of cobalamin (vitamin B-12) status in the epidemiologic setting: a critical overview of context, applications, and performance characteristics of cobalamin, methylmalonic acid, and holotranscobalamin II. Am J Clin Nutr. 2011 Jul;94(1):348S-358S. )

Concluindo, a “epidemia” de depressão pode esconder vários outros problemas, muitos gerados pelo estilo de vida contemporâneo. A alimentação rica em carboidratos de alto índice glicêmico e baixa quantidade de nutrientes (conhecida como junk food), aliada ao abuso de medicamentos para diminuir a acidez do estômago,  estão ajudando a criar o que parece ser essa “epidemia”. E o tratamento desses pacientes com antidepressivos somente mascara o problema, adiando o tratamento da doença de base. A falta do tratamento adequado pode levar ao diabetes (e todas as suas conseqüências) ou lesões cerebrais irreversíveis.

19 pensamentos sobre “Depressão: A “falsa”epidemia do século XXI?

  1. Meu Deus Todos os meus sintomas estão ai ,vou procurar um medico amanhã mesmo pra fazer estes exames muito interessante e sera que posso tomar a vitamina B12 mesmo com os antidepressívos que tomo Obrigada vc vai ajudar muitas pessoas !!

    • Inês, não há problemas na suplementação de vitamina B12 e a maioria dos antidepressivos, mas qualquer que seja o tratamento, faça somente sob supervisão médica.

    • O titulo do seu texto me deu uma ideia falsa do que seria o conteudo; esperava que voce dissesse que a depressão tem que parar de ser vista como algo causado exclusivamente pela deficiencia de neurotransmissores. O buraco é muito mais abaixo, afinal algo está causando o problema, como frustrações ,desilusões, não levar a vida que se quer etc; Tratar a depressão de verdade não é dar um comprimido pra tomar, é mudar o contexto de vida que o causa!

      • Prezado Elton, o que quiz mostrar com esse texto, é que muitos casos de depressão tem uma causa física, e não psíquica. Não estamos falando de desânimo, estresse, mas de um cansaço extremo sem causa aparente. E que na maioria das vezes é medicado sem que se procure a causa.
        O aspecto psicológico é importante, mas muitas vezes a questão é alimentar, por exemplo, no cado da resistência à insulina. A pessoa pode até resolver os conflitos psicológicos com uma boa psicoterapia, mas vai continuar tendo os mesmos sintomas. E, concordo com você, o comprimidinho não vai resolver o problema.

  2. Nossa! Esse post veio de encontro com que estou passando no momento, pois sou diagnosticada com depressão, e nos últimos 15 dias mal consegui sair da cama, mesmo com os anti depressivos, me sentia sem energia cansada até pra tomar banho, ou andar pela casa.

    Com essas novas informações vou procurar um endócrino e nutricionista e investigar mais a fundo, pois acredito que pode ser meu caso, muito obrigada mesmo!

  3. Realmente a depressão não é somente psiquíca, ele está relacionada a bioquímica do nosso organismo; a falta de nutrientes, vitaminas levam aos sintomas depressivos; me tratei durante anos, e quando já estava desistindo de me tratar, um novo médico descobriu que a deficiência de vitaminas, principalmente a B12; estava relacionada com a depressão. Hoje mantenho um tratamento e faço exames periódicos. Consigo levar uma vida normal. E sei quando é preciso retornar ao médico e reavaliar, devido aso sintomas, como fadiga, insônia, entre outros. att Elieti

  4. Gostaria de te parabenizar pelo Blog, sou estudante de medicina. E gosto de ler seus textos, porque além de dá uma visão diferente dos textos da faculdade, você levanta assuntos práticos! Saiba que está ajudando a muitas pessoas.

    • Obrigado Janaína. A profissão médica é maravilhosa, mas também de muita responsabilidade. E nós só devemos focar em uma coisa: O alívio do sofrimento do nosso paciente, e se possível, melhorar a saúde dele.

  5. O pior, caro Dr. Paulo, é que, além de todas essas “causas físicas”, a grande maioria dos médicos não dá valor ao lado espiritual do ser humano e aí, trata apenas as questões físicas, esquecendo de investigar o lado sentimental do ser humano, que não se trata de compartimentos isolados, mas de um TODO, criado pra “funcionar”, interagir em harmonia consigo mesmo, com os outros e com o Universo.

    • Prezada Fátima, todo médico deve levar em consideração os aspectos psicológicos dos pacientes. A medicina chinesa, por exemplo, tem uma abordagem interessante que a medicina ocidental não faz, diferenciando e tratando os diversos aspectos psicológicos.

  6. Gostei muito da matéria acho que a medicina convencional deveria saber mais sobre todo o nosso metabolismo e não ficar prescrevendo medicação que nos deixa mais doente ainda. Tenho fibromialgia e os médicos só me dão antidepressivos , não uso nenhum deles e atualmente o que está me segurando é a pregnenolona. Um abraço e parabéns por estar nós ajudando.OBRIGADA

  7. Ótimo texto, tenho hipotiroidismo e mesmo sendo da área de biologia o diagnóstico foi extremamente complicado, passei por dermatologista, hematologista e até fui tratada como depressiva…com a piora do quadro e a necessidade de um cardiologista, pois já estava com defict cardíaco, veio o encaminhamento a um endócrino e a final conclusão: sindrome de hashimoto com perda total da função tireoidiana…é incrível como um diagnóstico simples possa ser esquecido. Sinceramente agradeço ao cardiologista que soube encaminhar ao tratamento correto…

    • Prezado Maurício, as únicas fontes segura de vitamina B12 são de origem animal, como a carne ou os ovos. A B12 dos vegetais não funcionam conosco.

  8. PARABENS PELO BLOG, CREIO QUE VOU PODER AJUDAR MEU PAI E ME AUTO-AJUDAR TBM… QUE DEUS CONTINUE USADO O SENHOR PARA AJUDAR PESSOAS QUE ESTAO SOFRENDO E DESITINDO ATE DE VIVER. ABRACO!!!

  9. Muito boa a publicação! Ainda existem outros nutrientes que quando em carência em nosso corpo podem ocasionar sintomas semelhantes aos da depressão, como por exemplo: o magnésio, a vitamina D3, entre outros! A “depressão”, pode ser apenas um sintoma que está sendo causado por algum desequilíbrio nutricional do corpo. É realmente lamentável que muitas pessoas sejam tratadas apenas com anti-depressivos sem sequer investigar essa parte física, pois dificilmente irão melhorar… (ps. O lado psicológico também é muito importante…).

    • Olá Gustavo, tem toda a razão. Você encontra neste blog algumas informações sobre a vitamina D (que na realidade não é um nutriente, é um pró-hormônio, que pode ser suplementado pelo colecalciferol, ou vitamina D3). E o magnésio também é fundamental, principalmente o intracelular.

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