As ervas medicinais realmente funcionam?

Recentemente um médico conhecido atacou a fitoterapia em um programa de grande audiência na televisão brasileira. Não vi o programa, mas muitos pacientes indignados me chamaram atenção a respeito.

Criticar algo que não se conheça a fundo é muito complicado. Quantas vezes sou questionado durante a minha prática clínica a respeito de tratamentos que desconheço ou conheço superficialmente, e tenho que responder “não sei”. Por mais que estudemos, sempre haverá brechas enormes no conhecimento, mesmo na nossa área de estudo. Imagine então fora do nosso foco, quantas coisas deixamos de aprender.

Em relação à fitoterapia, o universo de pesquisas científicas é muito grande. Somente no índice “Pubmed”, da biblioteca nacional de medicina dos EUA, estão relacionadas 29.746 publicações, ou seja existem milhares de experimentos científicos realizados por centenas de instituições espalhadas pelo mundo.

Minha primeira observação é:  Acredito que a maioria das pesquisas em relação à fitoterapia são realizadas de forma equivocada. Muitas pesquisas são realizadas da mesma maneira que os remédios convencionais, ou seja, verificando se o medicamento pode “matar a doença”. Quem acompanha este blog sabe que a minha opinião é que deveria se pesquisar mais  se o medicamento é capaz de melhorar a saúde ao invés de curar a doença.

Vou citar alguns estudos recentes a respeito da fitoterapia. Por exemplo, vários componentes das plantas estão sendo testados em fase pré-clinica ( em animais de experimentação) e clínica (em humanos)  para prevenção do câncer. Entre os componentes testados temos a genisteina (da soja), o licopeno (do tomate), a brassinina (de vegetais como o repolho, a couve ou a mostarda), o sulforafano (do aspargo), o indol-3-carbinol (do brócolis), e o resveratrol (da uva ). Como esses componentes previnem o câncer, com certeza melhoram a saúde. (Gullett NP, Ruhul Amin AR, Bayraktar S, Pezzuto JM, Shin DM, Khuri FR, Aggarwal BB, Surh YJ, Kucuk O. Cancer prevention with natural compounds. Semin Oncol. 2010 Jun;37(3):258-81).

Muitos medicamentos utilizados na medicina tradicional chinesa são comprovadamente benéficos para melhorar a qualidade de vida do paciente com câncer. Em relação à imunidade, várias ervas, como a raiz do Astrágalo (uma erva comum em vários compostos da medicina chinesa), melhoram bastante o sistema imune dos pacientes, aumentando inclusive a capacidade de defesa da imunidade celular (células que destroem os agressores), além de diminuir os efeitos deletérios da quimioterapia. Outras ações de algumas ervas da medicina chinesa são a melhora da sobrevivência dos pacientes que tomam quimioterapia. As pesquisas incluem meta-análises (trabalhos que analisam vários estudos científicos detalhadamente,  considerado a melhor evidência científica para o médico tomar uma conduta). (Cho WC. Scientific evidence on the supportive cancer care with Chinese medicine. Zhongguo Fei Ai Za Zhi. 2010 Mar;13(3):190-4; Wu T, Munro AJ, Guanjian L, et al. Chinese medical herbs for chemotherapy side effects in colorectal cancer patients. Cochrane Database Syst Rev, 2005(1): CD004540; Shu X, McCulloch M, Xiao H, et al. Chinese herbal medicine and chemotherapy in the treatment of hepatocellular carcinoma: a meta-analysis of randomized controlled trials. Integr Cancer Ther, 2005, 4(3): 219-229.)

A mesma erva (raiz do Astrágalo) que ajuda pacientes com câncer, também melhora os pacientes com doenças infecciosas graves, como a miocardite viral (Liu ZL, Liu ZJ, Liu JP, Yang M, Kwong J. Herbal medicines for viral myocarditis. Cochrane Database Syst Rev. 2010 Jul 7;7:CD003711). O que significa isso? Para um pesquisador que não está acostumado com o raciocínio da melhora da saúde, esses dados parecem sem sentido. A erva é boa para tratar o câncer ou é antiviral? A resposta é simples: A erva é boa para ajudar o paciente, não para tratar a doença. Pesquisas relacionadas ao Astrágalo demonstraram que esse fitoterápico melhora muito a resposta imunitária, aumentando inclusive a expressão de genes, melhorando o processo inflamatório (sem ser antiinflamatório, ou seja, ajudando o nosso organismo a inflamar corretamente). (Denzler KL, Waters R, Jacobs BL, Rochon Y, Langland JO. Regulation of inflammatory gene expression in PBMCs by immunostimulatory botanicals. PLoS One.  2010 Sep 3;5(9):e12561)

Portanto, o uso de remédios naturais, como na fitoterapia, tem que ser baseado na melhora da qualidade da saúde e não se a erva vai ser “anti-cancer”, “antiinflamatória”, ou “antibiótica”, embora haja milhares de estudos nesse sentido. Na maioria das vezes não é “matando o câncer” que vamos resolver o problema do paciente oncológico, e sim melhorando as suas defesas. E com a saúde melhor, o nosso organismo pode se defender corretamente.

3 pensamentos sobre “As ervas medicinais realmente funcionam?

  1. Muito claro o seu blog.
    Eu vi uns lances desse programa e realmente fiquei surpresa e senti ser mais um programa das indústrias farmacêuticas. Da mesma forma que já tentaram detonar os remédios homeopatas, estão agora atacando os fitoterápicos. Eu que nem médica sou, entendo que qualquer coisa em excesso faz mal e esse ponto foi muito dito nesse programa, acredito que tentando mostrar a população que usa frequentemente as plantas como medicamento, que estão erradas.

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