Um dia esse remédio faz bem, em outro esse mesmo remédio faz mal

Não é incomum escutarmos críticas à medicina convencional, e dentro das críticas mais comuns está o fato de que, medicamentos antes prescritos pela maioria dos médicos tornaram-se, do dia para a noite, proscritos. Essa semana aconteceu de novo.

Muitos se surpreenderam com a notícia de que suplementos de cálcio aumentam a chance de um infarto do miocárdio (ataque do coração) (clique e leia a notícia e o artigo). Até há pouco tempo, era consenso entre os médicos que a reposição de hormônios na menopausa protegia a mulher de um infarto do miocárdio, mas agora se sabe que além de não proteger a mulher, a terapia de reposição hormonal aumenta a chance de acidente vascular cerebral (derrame) e de tromboembolismo (coagulação do sangue dentro de veias e artérias)(Denti L. The hormone replacement therapy (HRT) of menopause: focus on cardiovascular implications. Acta Biomed. 2010;81 Suppl 1:73-6). Descobriu-se recentemente que muitos antiiflamatórios , antes considerados seguros e vendidos abertamente sem receita médica por anos,  também aumentam a chance de problemas cardiovasculares como o infarto do miocárdio (Ray WA, Varas-Lorenzo C, Chung CP, Castellsague J, Murray KT, Stein CM, Daugherty JR, Arbogast PG, García-Rodríguez LA. Cardiovascular risks of nonsteroidal antiinflammatory drugs in patients after hospitalization for serious coronary heart disease. Circ Cardiovasc Qual Outcomes. 2009 May;2(3):155-63).

O que está acontecendo? Porque remédios antes considerados seguros e ideais estão sendo condenados?

Em relação a reposição hormonal, o raciocínio que leva a maioria dos médicos receitarem os hormônios é que a incidência de doenças como osteoporose, acidente vascular cerebral e infarto do miocárdio é muito maior nas mulheres menopausadas do que naquelas que ainda menstruam. Só que há um detalhe, enquanto que os hormônios naturais protegem a mulher contra essas doenças, os hormônios da reposição hormonal aumentam os problemas cardiovasculares (Carswell HV, Macrae IM, Farr TD. Complexities of oestrogen in stroke. Clin Sci (Lond). 2009 Dec 15;118(6):375-89).

E falando em reposição hormonal, é muito fácil entender o que acontece. A reposição de hormônios femininos aumenta o risco de trombose (coagulação intravascular) (Desancho MT, Dorff T, Rand JH. Thrombophilia and the risk of thromboembolic events in women on oral contraceptives and hormone replacement therapy. Blood Coagul Fibrinolysis. 2010 Jun 24). Se os hormônios femininos naturais protegem contra a coagulação dentro dos vasos, e os da reposição pioram, a questão está em como eles alteram a eletrostática do sangue, sendo que do ponto de vista da agregação eritrocitária, hormônios naturais e químicos tem efeitos completamente opostos.

Continuando o raciocínio com o exemplo do cálcio. O cálcio é um mineral muito importante, não só na formação do osso, mas para o funcionamento dos músculos e das células nervosas. O transporte do cálcio é feito pelo sangue, até os músculos e neurônios (células do sistema nervoso). Se por acaso o paciente tiver agregação eritrocitária (hemácias grudadas), a circulação do sangue vai estar comprometida (Baskurt OK. In vivo correlates of altered blood rheology. Biorheology. 2008;45(6):629-38), dificultando o transporte não só do cálcio, como de vários nutrientes. Como já vimos, a agregação eritrocitária é comum em pessoas idosas (Christy RM, Baskurt OK, Gass GC, Gray AB, Marshall-Gradisnik SM. Erythrocyte Aggregation and Neutrophil Function in an Aging Population. Gerontology. 2009). Mas músculos e neurônios precisam de cálcio, logo o organismo acaba mobilizando o cálcio da nossa reserva – o osso. Se o transporte de cálcio está comprometido, a reposição de cálcio não vai resolver o problema da osteoporose, e ainda vai haver mais cálcio para não ser transportado, e mais cálcio para ser depositado na parede das artérias, sendo uma possível causa do aumento do infarto do miocárdio. Confirmando esse raciocínio, um estudo recente relacionou a osteoporose com a deposição de cálcio em artérias e válvulas do coração (Hjortnaes J, Butcher J, Figueiredo JL, Riccio M, Kohler RH, Kozloff KM, Weissleder R, Aikawa E. Arterial and aortic valve calcification inversely correlates with osteoporotic bone remodelling: a role for inflammation. Eur Heart J. 2010 Jul 2.). Os remédios modernos para o  tratamento da osteoporose (conhecido como bifosfonados, sendo o mais conhecido o alendronato) simplesmente prejudicam as células responsáveis pela reabsorção do cálcio, não resolvendo o problema do paciente.

Portanto, quando verificamos que medicamentos como os antiinflamatórios (como o Vioxx entre outros) aumentam o risco de problemas tromboembólicos (Joshi GP, Gertler R, Fricker R. Cardiovascular thromboembolic adverse effects  associated with cyclooxygenase-2 selective inhibitors and nonselective antiinflammatory drugs. Anesth Analg. 2007 Dec;105(6):1793-804), estamos falando do mesmo aspecto dos hormônios e do cálcio: O aumento da agregação eritrocitária.

E o que parece um paradoxo, “um dia o remédio faz bem e no outro faz mal”, simplesmente é resultado de uma falta de estudos em relação aos efeitos dos remédios na saúde. Como não se estuda a influência da carga elétrica da medicação no paciente, acaba-se descobrindo muito mais tarde (e após problemas de saúde gerados pela droga) que a medicação provoca problemas piores do que trata. Isso gera processos e perdas para a indústria farmacêutica.

Há diversos problemas que impedem a indústria farmacêutica investir nesse novo paradigma. Temos pouquíssimos cientistas que entendem da influência das cargas eletrostáticas na saúde. Todo o raciocínio científico, inclusive o modelo mais utilizado na medicina baseada em evidências, estuda quase sempre os efeitos dos medicamentos em sintomas específicos, e não no impacto desses medicamentos na qualidade da saúde.

Não seria melhor (e mais barato) se as pesquisas já começassem com o objetivo de melhorar a saúde? Ainda sonho com uma linha de medicamentos com o objetivo maior de melhorar a saúde dos pacientes, ao invés de retirar os sintomas a qualquer preço.

Portanto está aí uma nova idéia, que acredito que um dia vai nortear a pesquisa científica e o tratamento médico: O uso de medicamentos que comprovadamente melhoram a saúde, alterando a carga eletrostática do sangue para o nível normal (o que significa na grande maioria dos casos diminuição da agregação eritrocitária) e pesquisas básicas cujo tema será como melhorar a saúde. Neste momento muitas doenças crônicas vão deixar de serem crônicas e a qualidade de vida das pessoas vai dar um salto em direção à saúde.

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