A MEDICINA E SEUS PROBLEMAS

Para quem ainda não leu o texto de apresentação do blog, vale a pena lê-lo antes de ler esse post em https://saudeblog.wordpress.com/about/

Um paciente está com uma artrite reumatóide, cuja possível causa foi uma infecção por um vírus. A reação desse paciente ao ataque deste vírus gera uma inflamação, que ameaça destruir várias articulações (“juntas”) do paciente, na tentativa do organismo de acabar com o agressor. Células responsáveis pela defesa atacam e produzem anticorpos. Há uma guerra pela manutenção da saúde. O que vemos no doente são os efeitos da guerra. O médico  então destrói as defesas do paciente, interrompendo a inflamação. Agora os micróbios, não somente aquele vírus que provocou o problema, estão livres para agirem como bem queiram. Alguns anos depois, esse paciente  está com osteoporose, diabetes, problemas mentais e com diversos órgãos com problemas de funcionamento. (Münz C, Lünemann JD, Getts MT, Miller SD. Antiviral immune responses: triggers of or triggered by autoimmunity? Nat Rev Immunol. 2009 Apr;9(4):246-58)(McDonough AK, Curtis JR, Saag KG. The epidemiology of glucocorticoid-associated adverse events. Opin Rheumatol. 2008; 20(2):131-7)

Outro paciente tem uma diminuição da circulação no cérebro, que pode ser resultado dos glóbulos vermelhos estarem grudados. O organismo então tenta normalizar a oxigenação do cérebro, aumentando o fluxo de sangue. Essa reação do organismo aumenta a pressão arterial, gerando riscos de um acidente vascular cerebral (“derrame”). O médico então suprime a reação do organismo, baixando a pressão arterial. Alguns anos depois esse paciente está com alterações importantes de memória, pois o cérebro ficou longo tempo sem oxigênio suficiente. (Konstantinova E, Ivanova L, Tolstaya T, Mironova E. Rheological properties of blood and parameters of platelets aggregation in arterial hypertension. Clin Hemorheol Microcirc. 2006;35(1-2):135-8)( McGuinness B, Todd S, Passmore P, Bullock R. Blood pressure lowering in patients without prior cerebrovascular disease for prevention of cognitive impairment and dementia. Cochrane Database Syst Rev. 2009 Oct 7;(4):CD004034)( Chang CY, Liang HJ, Chow SY, Chen SM, Liu DZ. Hemorheological mechanisms in Alzheimer’s. Microcirculation. 2007 Aug;14(6):627-34.)

Esses dois casos hipotéticos, baseados na conduta médica atual e na literatura científica, refletem o raciocínio atual da medicina. O tratamento da causa das doenças não é importante, já que para o médico as doenças são todas “culpa dos pacientes”, ou seja, os pacientes são “defeituosos” pois nasceram já marcados com as doenças crônicas, seja a artrite ou a hipertensão arterial. Mas será possível que, 23 anos após o início do projeto genoma humano, não se conseguiu achar o “gene da hipertensão” ou o “gene da artrite”? (Sahu BS, Sonawane PJ, Mahapatra NR. Chromogranin A: a novel susceptibility gene for essential hypertension. Cell Mol Life Sci. 2010 Mar;67(6):861-74.)( Maksymowych WP, Brown MA. Genetics of ankylosing spondylitis and rheumatoid arthritis: where are we at currently, and how do they compare? Clin Exp Rheumatol. 2009 Jul-Aug;27(4 Suppl 55):S20-5.).

Já que somos todos “defeituosos” então a única coisa que podemos é utilizar drogas para minimizar o estrago da doença. É nisso que acredita uma parte significante dos médicos, e a conduta é baseada nessa premissa. Infelizmente esse raciocínio impede que cientistas pesquisem outras causas de doenças (já que todos acreditam que há um defeito nessas pessoas, para que pesquisar outras causas?) e a imensa maioria das pesquisas atuais baseia-se na procura de drogas que controlam os sintomas das doenças, sem procurar tratar as causas. O resultado é uma população cada vez mais jovem dependente de uma série de medicamentos, dependência que vai aumentando com a idade. A uma certa altura da vida a pessoa tem que tomar um remédio para hipertensão, o outro para diabetes, o outro para baixar o colesterol, outro para proteger o estômago de tanto remédio, continuando doente e com uma qualidade de vida sofrível. E o que é pior, a imensa maioria das combinações de medicamentos nunca foram testadas em conjunto, o que significa que todos estão sujeitos a interações medicamentosas completamente imprevisíveis.( Caccia S, Garattini S, Pasina L, Nobili A. Predicting the clinical relevance of drug interactions from pre-approval studies. Drug Saf. 2009; 32(11):1017-39.).

Ao lado desse raciocínio, vemos um constante descaso do médico em relação ao exame clínico do paciente. Com exceção de uns poucos médicos, a maioria não valoriza a anamnese (a conversa onde o médico pergunta queixa, duração dos sintomas, antecedentes pessoais e familiares, sintomas gerais entre outros) ou examina atentamente o paciente. Com o desenvolvimento dos exames de imagem e laboratoriais, os médicos preferem pedir uma tomografia a palpar um abdome. Preferem um raio-X de tórax a uma ausculta do pulmão. Tenho visto pacientes com ausculta clara de pneumonia sem ainda um raio-X alterado recebendo tratamentos paliativos, enquanto que necessitam de antibióticos com urgência. Outras vezes ouço um sopro cardíaco em pacientes que  já passaram por vários cardiologistas. Os exames são necessários, mas são complementares ao exame clínico, não substituem o exame médico. Robôs não são bons médicos e médicos não devem ser robôs.

Uma medicina baseada em uma premissa que os pacientes já nasceram com a doença, diagnóstico baseado exclusivamente em exames laboratoriais e tratamento com drogas que pioram a saúde  acaba sendo uma medicina cara e pouco eficiente, já que todos continuam doentes. Isso tem que mudar. Apesar do progresso da ciência, o que temos em medicina hoje não satisfaz a maioria dos pacientes, que deveriam ser os maiores interessados.

Uma medicina baseada em um exame médico cuidadoso e detalhado, com o médico baseando suas hipóteses diagnósticas no exame clínico, utilizando os  exames laboratoriais somente para testar essas hipóteses. Um tratamento privilegiando a qualidade de vida e a recuperação da saúde. E um médico que saiba escutar e realmente ajudar seus pacientes. Cientistas pesquisando as causas das doenças e testando seriamente tratamentos que não vão deixar os pacientes mais doentes. Tudo isso parece um sonho, mas na minha opinião, somente se perseguirmos esse sonho teremos um futuro com melhor qualidade de vida e de saúde.

Dr. Paulo Luiz Farber

Um pensamento sobre “A MEDICINA E SEUS PROBLEMAS

  1. Ótimo post, Dr Paulo!
    Concordo totalmente e acho que em grande parte alguns médicos mais atrapalham do que ajudam. Temos nossos mecanismos para manter nosso organismo saudável e quando entramos com drogas e intervenções que apenas suprimem os sintomas, não só não ajudamos como atrapalhamos nosso processo natural e eficaz de cura.

    O problema é que a ignorância por parte dos pacientes e de alguns médicos faz com que essa supressão de sintomas pareça algo bom, sustentável e definitivo, quando na verdade jogamos a poeira em baixo do tapete e apenas lá na frente é que vamos ver o estrago.

    O entendimento do nosso corpo, da natureza e seus processos de homeostase, equilíbrio e cura é fundamental para a evolução da nossa medicina e bem-estar.

    É pena terem tão poucos como você pensando fora dos paradigmas atuais.

    Parabéns pelo blog e pelo trabalho.

    Um grande abraço,

    Rodrigo Leite

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