Homeopatia é placebo?

Recentemente a comissão de Ciência e Tecnologia do Parlamento Britânico publicou um relatório afirmando que remédios homeopáticos não passam de placebo, afirmando que os remédios homeopáticos não tratam doenças. http://noticias.terra.com.br/ciencia/noticias/0,,OI4284258-EI238,00-Polemica+sobre+a+homeopatia+no+Reino+Unido+gera+debate+no+BR.html

E eles estão certos. A homeopatia não trata doenças e sim doentes. Não se pode pegar um modelo que utiliza medicamentos sintomáticos e aplicá-lo para avaliar medicamentos que visam o equilíbrio e a homeostase. Aqui coloco não só a homeopatia, mas a fitoterapia, a acupuntura, o Qigong, o Taijiquan (Tai Chi), técnicas de meditação, suplementos alimentares e medicamentos que promovem a saúde.

O maior problema é que estamos tão acostumados com o raciocínio “este remédio é para tratar aquela doença” que qualquer que seja o tratamento tem que se encaixar neste raciocínio. Ou seja, comparamos a homeopatia, com o que nós temos de melhor, nossos remédios.

Os remédios convencionais, com exceção de alguns como os antibióticos, não conseguem curar nada. Remédios para hipertensão não curam pacientes hipertensos, remédios para artrite não curam pacientes artríticos, remédios para diabetes não curam pacientes diabéticos. E servem para quê. Somente para controlar os sintomas da doença e evitar problemas maiores. Mas não curam nada. E o pior é que esse é o nosso “Gold Standard”.

Como os remédios não conseguem a cura, e sim a melhora dos sintomas, criou-se uma metodologia para avaliar esse tipo de medicação. Separa-se em grupos “cegos” (onde nem o pesquisador nem o paciente sabem se estão utilizando medicamentos  ou substâncias inertes – placebos) e os sintomas são avaliados nos grupos e submetidos a avaliação estatística.

O problema é que a homeopatia não é prescrita para sintomas, e sim para o paciente doente. Um paciente com artrite vai ter uma prescrição diferente de outro paciente com exatos os mesmos sintomas. Porque a homeopatia não vai servir para retirar os sintomas, mas sim para melhorar a condição de saúde deste paciente. Inicialmente é comum que os sintomas até piorem, e também é comum que voltem sintomas antigos e apareçam outros. Tudo isso faz parte do processo de tratamento da homeopatia.

Paralelamente, se analisarmos artigos que estudaram a homeopatia como promotor da imunidade, melhorando o sistema imune, conclui-se que a homeopatia é eficaz para melhorar o sistema imune. É interessante observar que grande parte desses estudos foram feitos no Brasil, um dos países que reconhecem a homeopatia como especialidade médica (Cesar B, Abud AP, de Oliveira CC, Cardoso F, Bernardi RP, Guimarães FS, Gabardo J, de Freitas Buchi D. Treatment with at Homeopathic Complex Medication Modulates Mononuclear Bone Marrow Cell Differentiation. Evid Based Complement Alternat Med. 2009 Sep 7.; Guimarães FS, Abud AP, Oliveira SM, Oliveira CC, César B, Andrade LF, Donatti L, Gabardo J, Trindade ES, Buchi DF. Stimulation of lymphocyte anti-melanomaactivity by co-cultured macrophages activated by complex homeopathic medication.  BMC Cancer. 2009 Aug 22;9:293.; Patil CR, Salunkhe PS, Gaushal MH, Gadekar AR, Agrawal AM, Surana SJ. Immunomodulatory activity of Toxicodendron pubescens in experimental models. Homeopathy. 2009 Jul;98(3):154-9.; Burbano RR, Leal MF, da Costa JB, Bahia Mde O, de Lima PD, Khayat AS, Seligman IC, de Assumpção PP, Buchi Dde F, Smith Mde A. Lymphocyte proliferation stimulated by activated human macrophages treated with Canova. Homeopathy. 2009 Jan;98(1):45-8.; de Almeida LR, Campos MC, Herrera HM, Bonamin LV, da Fonseca AH. Effects of homeopathy in mice experimentally infected with Trypanosoma cruzi. Homeopathy. 2008 Apr;97(2):65-9.; Ramachandran C, Nair PK, Clèment RT, Melnick SJ. Investigation of cytokine expression in human leukocyte cultures with two immune-modulatory homeopathic preparations. J Altern Complement Med. 2007 May;13(4):403-7.) Já se colocarmos nesse raciocínio, a maioria dos medicamentos alopáticos não funciona pois não melhoram o sistema imune. Muitos, pelo contrário, inibem fortemente o sistema imune, exemplo dos corticóides e dos imunossupressores.

A imunidade não é a única maneira de análise da saúde de um paciente, mas infelizmente a maioria dos estudos científicos atuais em relação a medicamentos é fortemente baseado em sintomas, ninguém parece preocupado em analisar o quanto a saúde dos pacientes melhora ou piora após um tratamento. Em minha opinião, o tratamento só pode ser bom se melhorar a saúde dos pacientes ao mesmo tempo em que alivia os sintomas.

Finalizando, condenar a homeopatia ou qualquer tratamento que visa promover a saúde só faz sentido se for comprovado que não melhoram os parâmetros da saúde, como por exemplo a imunidade, a agregação eritrocitária e o funcionamento do sistema neuroendócrino.

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Os perigos da nova panacéia universal – O uso abusivo dos corticóides.

Diariamente vejo no consultório pacientes fazendo uso crônico ou agudo de corticóides, que são substâncias com ação semelhante ao hormônio cortisol, produzido pela glândula supra-renal. Atualmente vejo o uso abusivo até em pediatria, onde até problemas banais de saúde são tratados com essa classe de medicamento.

O hormônio cortisol, produzido principalmente durante o estresse, tem uma ação antiinflamatória. Os corticóides sintéticos, ministrados na forma de medicamentos, tem uma ação bem mais potente e bem mais duradoura. Em algumas situações de emergência, os corticóides sintéticos têm uma ação muito boa, salvando vidas. Alguns exemplos são o traumatismo craniano, as crises asmáticas e as crises alérgicas graves. Portanto não critico o uso do corticóide nessas situações, mas sim do uso abusivo dessas drogas.

O corticóide químico tem como ação principal inibir o sistema imunológico e suprimir a inflamação. Por que inflamamos? A inflamação é a nossa defesa natural. Quando somos agredidos, nós inflamamos. Antes de curar de uma gripe, por exemplo, pioramos bastante, temos febre, mal estar, dores no corpo. Após essa fase de piora, melhoramos e curamos a gripe. Assim é com toda a agressão, seja por micróbios ou por lesões químicas ou físicas (queimaduras, traumas, ácidos, venenos). Ou seja, a inflamação faz parte do processo natural de cura. É a nossa defesa.

Há inflamações exageradas, como em crises alérgicas, que necessitam intervenção, ou no caso descrito de trauma craniano. Mas como os corticóides suprimem toda a inflamação, eles acabam retirando rapidamente os sintomas.

Quando o médico recebe um paciente sofrendo de uma doença, o que normalmente o médico quer é que os sintomas desapareçam o quanto antes. E é aí que entram os corticóides. Esses medicamentos retiram toda a reação do organismo. Então “aparentemente” o paciente é curado. Mas o que pode acontecer, é que os fatores agressores continuam ali, o que foi retirado foi a reação do organismo. Mas o médico e o paciente ficam satisfeitos, pois os sintomas desapareceram. Esse raciocínio acaba levando o médico a prescrever cada vez mais corticóides, e não pode ser negligenciado o risco desta atitude gerar mais problemas do que a doença inicial.

O uso crônico de corticóides pode gerar vários problemas, como o diabetes, a osteoporose, o aumento de infecções e até problemas psiquiátricos, como mania e depressão, diminuição de memória, alterações de sono, alterações de apetite, além de relatos de suicídio. (Brown ES. Effects of glucocorticoids on mood, memory, and the hippocampus. Treatment and preventive therapy. Ann N Y Acad Sci. 2009 Oct;1179:41-55) (Fietta P, Fietta P, Delsante G. Central nervous system effects of natural and synthetic glucocorticoids. Psychiatry Clin Neurosci. 2009 Oct;63(5):613-22).

Portanto, corticóides estão longe de não terem efeitos colaterais. Utiliza-los para fazer desaparecer os sintomas, sendo que os fatores que causaram o problema continuam agindo, não me parece lógico. Além do mais, estamos suprimindo a reação natural do nosso organismo. Eu prefiro utilizar somente um antibiótico, por exemplo, do que utilizar qualquer corticóide em conjunto, mesmo que os sintomas demorem um pouco mais para desaparecer. Pelo menos sei que estou preservando a capacidade do organismo de reagir.

Alguns usos de corticóides são consagrados, como no caso das doenças autoimunes (lúpus, artrite reumatóide, entre outras) e na bronquite asmática. Mas mesmo nessas doenças, eu questiono a indicação, pois na minha opinião, o uso do corticóide é baseado no fato que essas doenças são “defeitos” dos pacientes. Há dois fatores importantes que contradizem essa idéia do “defeito”. Após mais de 20 anos de pesquisas do projeto genoma humano, ainda não foi identificado nenhum gene responsável por essas doenças. O segundo fator é a coexistência de micróbios em muitas doenças autoimunes, desencadeando essas doenças (Kivity S, Agmon-Levin N, Blank M, Shoenfeld Y. Infections and autoimmunity–friends or foes? Trends Immunol. 2009 Aug;30(8):409-14.). Se não há um gene que diga que quando você nasce você vai ter aquela doença, e ainda há fatores infecciosos que podem desencadear a doença, é possível que essas doenças sejam apenas sintomas do efeito da nossa defesa contra agentes agressores. Dentro deste raciocínio, não me parece certo frear a reação do corpo, e sim ajuda-lo a resolver a questão. Com a ressalva de que isso somente deve ser feito com a certeza de que nenhuma função vital do organismo estiver sendo atacada por anticorpos. Se por exemplo o cérebro e os rins estiverem em perigo em um paciente com lúpus eritrematoso, pode ser necessário o uso de agentes que diminuem a imunidade.

Portanto, ajudar o organismo a se defender, é o caminho mais lógico para a cura das doenças. A estratégia de atrapalhar nossas defesas para diminuir os sintomas deve ser pensada somente em último caso, quando não tiver alternativa.