A Estabilidade Coloidal e a Saúde

Quando comecei a estudar a estabilidade coloidal e as forças elétricas envolvidas, uma pergunta passou repetidamente pela minha cabeça: Por quê nunca estudamos esse assunto na faculdade? Por quê esse aspecto físico tão conhecido e conceituado da química é completamente ignorado na medicina?

A resposta é simples: Os conceitos envolvidos são das áreas da física e da química. Conceitos físico-químicos são pouco estudados  em medicina, a maioria muito superficialmente. Estudam-se agonistas e antagonistas de receptores no organismo, mas como funciona a interação entre, por exemplo, um hormônio e seu receptor é um mistério, sem que os cientistas invistam em esforços para desvendá-lo. A hipótese da “chave e fechadura”, por exemplo, não explica como o hormônio localiza o seu receptor. Outros conceitos físicos ou químicos são estudados também de maneira superficial, inclusive os básicos, como a coagulação sanguínea. Conhece-se a cascata de coagulação, principalmente para compreender os usos de coagulantes e anti-coagulantes na prática clínica, mas os mecanismos físicos, como o porquê forma-se o gel rígido que chamamos de coágulo, não é discutido ou pesquisado. E isso apesar dos fenômenos envolvidos com a obstrução de veias e artérias serem a principal causa de morbidade e mortalidade nos dias atuais, como no infarto coronariano ou na trombose venosa. Portanto temos que estudar como se comporta fisicamente o sangue e como evitar essas alterações.

Para conseguirmos estudar esse tema, temos que entender o sangue como um sistema coloidal. Mas o que é um colóide?

Os sistemas coloidais  são formados por substâncias insolúveis que se apresentam finamente divididas. Trata-se de um sistema homogêneo, pelo fato da partícula em menor quantidade (equivalente ao soluto de uma solução e definida como fase dispersa) estar dispersa no solvente apresentar-se em dimensões muito pequenas a ponto de ser vista somente no microscópio óptico. A partícula coloidal está estabilizada e por isso não se separa como uma fase distinta.

Ou seja, colóides são substâncias que aparentemente são homogêneas, mas que se mostram heterogêneas ao exame microscópio. Exemplos de colóides: pasta de dentes, xaropes, leite, urina e sangue. A estabilidade coloidal é bem conhecida na química (como nos processos de interação entre as partículas, atração e repulsão, gerando a estabilidade coloidal), e um colóide estabilizado apresenta-se homogêneo e quando está instável forma fases distintas, situação essa conhecida como floculação ou coagulação, cujos mecanismos físicos envolvidos estão bem elucidados.  O sangue, sendo um colóide, quando está estabilizado não forma depósitos e não se coagula.

Apesar da importância do tema, existem somente uns poucos estudos no que se refere ao resultado das modificações das propriedades coloidais na medicina, com as exceções dos estudos sobre a  velocidade de hemossedimentação e das reações de hemaglutinação.

Portanto, se não estudarmos a estabilidade coloidal, nunca conseguiremos entender a causa de muitas patologias, e qualquer tratamento desenvolvido sem esse conhecimento será por “tentativa e erro” e não por um sistema racional.

Posso ser ainda mais contundente, afirmando que dificilmente poderemos realmente praticar uma medicina baseada em evidências se não conhecemos a intimidade física do que acontece no interior das nossas veias, artérias, capilares, vasos linfáticos, ureteres, cristalino, glândulas salivares, ductos biliares, citoplasma, só para citar alguns lugares onde podem ser encontrados os sistemas coloidais no nosso organismo.

4 pensamentos sobre “A Estabilidade Coloidal e a Saúde

  1. Viu, só uma correção: o sangue é uma suspensão e não um coloide, pois trata-se de particulas do soluto superiores a 100nm e necessitando de constante agitação.

    • Olá Isabela, Segundo Hunter, o “papa” da estabilidade coloidal, as partículas coloidais podem ter até 1 micrômetro, mas mesmo particulas maiores podem se comportar da mesma maneira. Segundo Riddick o sangue é sim um colóide, e ele fez no seu livro vários experimentos medindo a relação elétrica entre as partículas (potencial zeta). 1. Hunter RJ. Foundations of Colloid Science, Vol 1. Oxford: Clarendon Press, 1993.
      2. Riddick TM. Control of colloidal stability through zeta potential. New York: Creative Press, 1968.

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