Hemácias grudadas – O que significa isto?

Nos últimos meses, dezenas de trabalhos científicos vêm revelando o aumento da agregação eritrocitária (onde as hemácias, ou glóbulos vermelhos do sangue ficam aderidas umas às outras) em diversas situações.
Quando envelhecemos, por exemplo, a agregação eritrocitária aumenta enquanto a imunidade diminui. Cientistas australianos verificaram que na faixa de idade entre 50 e 59 anos a agregação das hemácias é significativamente maior do que em jovens entre 20 e 39 anos. E além das hemácias ficarem mais aderidas, a atividade de uma célula muito importante para a nossa defesa, o neutrófilo, diminui com a idade. Nesse estudo não foram estudados grupos mais idosos. (Christy RM, Baskurt OK, Gass GC, Gray AB, Marshall-Gradisnik SM. Erythrocyte Aggregation and Neutrophil Function in an Aging Population. Gerontology. 2009 Sep 24.).
Numerosas doenças tem sido correlacionadas com a agregação eritrocitária, como diabetes, hipertensão arterial, acidente vascular cerebral (derrame), tumores malignos, infecções, entre outras. Mas qual o significado disto?

Hoje, vamos começar a discutir esse assunto, fundamental para entendermos a diferença entre a saúde e a doença.

Vejam a frase: “No atual estágio de evolução da medicina, em breve teremos a cura para muitas doenças”.
O texto acima parece ter sido feito nos dias atuais, mas, ao contrário do que parece, foi retirado de um livro médico do início do século XX. Naquela época, com o advento dos raios-x, a ciência médica parecia estar alcançando uma evolução nunca antes concebida. Estávamos conseguindo ver através da pele e dos músculos, sem necessidade de cortá-los.
É curioso como essas afirmações parecem risíveis, após um século. E com certeza daqui a um século os médicos de então olharão da mesma maneira os livros atuais. Portanto, para uma visão mais crítica, temos que ser modestos e destituirmo-nos de qualquer arrogância. Não estamos no “auge da evolução científica”. Doenças que afligem o homem há séculos, como o diabetes, a hipertensão, a doença coronariana, as doenças auto-imunes, a maioria das doenças neurológicas, só para citar algumas, continuam sendo um enigma e um desafio para a medicina.
Embora tenhamos algumas drogas para controlá-las, a origem e a cura dessas doenças continuam desconhecidas. Nós, médicos, encontramos palavras complicadas para denominarmos a nossa completa ignorância sobre o assunto, chamando a doença de essencial ou ideopática, para que não tenhamos que encarar a nossa impotência sobre o assunto.
Portanto, vale a pena descer do pedestal e avaliar com distância a atual visão do tratamento de doenças como a hipertensão e a obstrução das artérias coronárias.
Uma das formas de entender melhor um assunto é através de uma metáfora. O objeto dessa comparação pode ser o automóvel. O motor de um automóvel, se não forem tomados alguns cuidados, pode formar um tipo de borra, um tipo de depósito nas paredes internas, que podem obstruir os orifícios de circulação de óleo, podendo até impedir o funcionamento do motor. Já vi motores que explodiram devido ao excesso da pressão de óleo, causado por uma ou várias borras dessas. Ou seja, automóvel também tem “hipertensão arterial” e “infarto do miocárdio” se não for bem cuidado. A diferença entre o automóvel e o ser humano é que é só trocar o motor por um novo e está resolvido o problema. Agora imaginem se o raciocínio utilizado pelos engenheiros mecânicos e engenheiros químicos que cuidam dos automóveis e dos óleos fosse o seguinte.
– Seu carro ainda não tem uma borra aparente? Continue assim, no dia que formar uma borra, veremos o que podemos fazer.
– Vamos fazer exames para saber se há chance de formar borras. Vamos tirar um pouco de óleo e verificar se há micro borras. Mas há micro borras boas, e micro borras ruins. Vamos desenvolver um aditivo para colocar no óleo para diminuir as micro borras ruins.
– Mesmo com os aditivos para diminuir as micro borras ruins, muitos automóveis formam borras e ficam com problemas. Tudo bem, é só compararmos os automóveis “com aditivo” e “sem aditivo” e veremos que os com aditivo demoram mais para ter problemas.
– Quem normalmente faz os testes dos aditivos? – Engenheiros comprometidos com a fábrica de aditivos, que só podem publicar artigos elogiando os aditivos.
– Como formam as borras? Qual o princípio físico envolvido? Não, isso ninguém estuda.
– Os automóveis “com aditivo” ficam mais fracos? Outras partes do automóvel são prejudicadas? Não faz mal, desde que o motor forme menos borras.
– Todos os automóveis depois de uma certa idade, devem utilizar um produto que deixe o óleo mais fino, para passar mais fácil pelos canais e orifícios entupidos com borra.
– Impedir que a borra se forme? Como, se não sabemos os princípios físicos envolvidos.
– Se a pressão do óleo tiver ficando muito alta, podemos diminuir a quantidade de óleo ou aumentar o tamanho dos canos por onde ele passa. Não faz mal se outras partes do automóvel fiquem prejudicadas.
– No caso de urgência, tentamos desentupir os tubos onde o óleo passa ou colocar caninhos externos para desviar o óleo do local obstruído. Se nada der certo, trocamos o motor. Mas esses carros com motores novos tem que utilizar um grande número de aditivos que podem fazer o carro quebrar a qualquer momento.
– O dono do carro ficou deprimido depois de tudo isso. É só prescrever um antidepressivo para ele.
Parece surreal, não? Mas os engenheiros conhecem o problema, e tem desenvolvido óleos lubrificantes de qualidade superior, que impedem a formação das borras. É muito mais fácil prevenir do que remediar. E o dono do carro tem que trocar o óleo regularmente por outro de qualidade compatível. Mas se colocar um óleo com um detergente superior em um carro já com borras, elas podem até se soltar e entupir o motor.
Mas o que interessa é que os engenheiros conhecem os princípios físicos envolvidos com o que estão trabalhando. Agora troque o automóvel pelo seu corpo, os caninhos por onde circulam o óleo pelas suas veias e artérias, o motor pelo coração, a pressão de óleo pela pressão arterial, as micro borras pelo colesterol, os aditivos por estatinas, ácido acetil-salicílico e anti-hipertensivos.
Portanto, na medicina atual, não se conhecendo o princípio físico envolvido com a formação de ateromas, agregação eritrocitária e plaquetária, viscosidade do sangue, entre outros, estamos jogando no escuro de maneira semelhante aos engenheiros fictícios da história do automóvel e da borra.
Hoje na ciência médica estuda-se muito pouco sobre os princípios físicos da saúde e da doença. Mas, nos últimos 60 anos, vários cientistas já pesquisaram o assunto. E, possivelmente, estamos adentrando em uma nova área do conhecimento, que pode modificar completamente a visão da saúde e da doença e da prevenção e do tratamento médico.
Nas próximas semanas, vamos dissecar um pouco mais esse assunto, e, finalmente, podermos sair da racionalidade “vamos dar um remedinho para essa ou aquela doença”.

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